Trabalho como fuga
Trabalho como fuga: o que a tarefa adicional permite adiar
Imagine duas noites de uma mesma semana. Na terça, o expediente termina e a pessoa vai embora. Ainda há coisas a fazer, mas podem esperar. Na quinta, depois de um dia particularmente difícil, ela encontra uma razão para ficar: revisar um arquivo, responder a uma mensagem, adiantar uma parte pequena do dia seguinte. O trabalho cansou mais e, mesmo assim, a saída parece menos atraente.
A expressão trabalho como fuga oferece uma interpretação imediata dessa diferença. Trabalha-se para evitar outra coisa, que uma explicação pronta pode identificar como conflito em casa, solidão ou dificuldade de estar consigo. A sequência das duas noites permite uma investigação mais delimitada: que alteração ocorre quando a tarefa termina e aparece a possibilidade de sair?
O interesse pelo trabalho pode ser verdadeiro nas duas ocasiões. Uma necessidade econômica ou uma entrega imprevista também pode explicar a permanência. A pergunta sobre outra função começa quando esses elementos foram considerados e ainda há uma diferença que a quantidade de horas, sozinha, não permite descrever.
Na terça, foi possível ir embora
Ao sair, a pessoa talvez já soubesse o que faria com a noite. Havia um encontro combinado ou uma atividade que desejava concluir. O trabalho pôde ficar inacabado sem que isso fosse vivido como abandono. Essa noite oferece uma informação importante: na mesma semana, foi possível reconhecer uma tarefa pendente e permitir que ela esperasse.
Pode ser que a terça também tenha sido difícil. Houve uma conversa desagradável, o tempo passou devagar, alguém cuja presença se esperava não apareceu. Ainda assim, a noite transcorreu fora do expediente. Para situar a escolha de quinta, importa saber o que aconteceu depois da saída de terça, em vez de descrever as duas apenas como exemplos de trabalhar pouco e trabalhar demais.
Ficar mais tarde pode modificar a relação com uma experiência anterior. Se a terça expôs uma conversa ainda sem resposta, a tarefa adicional de quinta talvez prolongue um intervalo em que aquela conversa permanece suspensa. Isso é uma hipótese a construir a partir do relato, não uma causa a atribuir a quem trabalha até tarde.
Também pode haver uma diferença nos vínculos disponíveis. Na terça, era possível encontrar alguém; na quinta, permanecer oferece interlocutores que estariam ausentes fora dali. O trabalho é um lugar de relações e participação, além de fonte de renda. Reconhecer esse aspecto preserva aquilo que a permanência oferece, mesmo quando começa a ter custos que a pessoa quer examinar.
Na quinta, apareceu uma tarefa pequena
O detalhe é o momento em que a tarefa foi encontrada. A necessidade de revisar o arquivo já estava presente durante a tarde? Surgiu depois de receber uma mensagem? A pessoa ia sair e voltou à mesa ao perceber que a noite estava livre? A sequência pode mostrar uma exigência real ainda não considerada ou permitir formular o que mudou quando a saída se tornou possível.
A tarefa pequena oferece uma organização conhecida. Há um problema delimitado, ações a executar e critérios para reconhecer um resultado suficiente. Em outra situação, esses recursos podem não estar disponíveis: uma decisão não tem prazo, uma conversa não produz conclusão, uma ausência continua sem providência capaz de encerrá-la. Permanecer pode adiar esse encontro e oferecer, por mais uma hora, uma atividade sobre a qual se sabe operar.
Essa função pode ter se constituído depois da rotina que a torna possível. Em Inibições, sintomas e ansiedade, de 1926, Freud examina a relação do eu com o sintoma e descreve tentativas de incorporá-lo à sua organização. Vantagens secundárias podem participar da manutenção do sintoma, sem que essas vantagens expliquem sua produção inicial. A distinção importa para separar aquilo que originou uma formação do uso que ela pode adquirir depois.
O texto trata de sintomas; a aproximação proposta aqui não define trabalho intenso como sintoma. Retém uma pergunta sobre manutenção: além da razão pela qual algo começou, que função passou a cumprir? Uma jornada ampliada por necessidade pode permanecer mesmo quando essa necessidade diminui, agora participando de uma organização que só se torna perceptível ao tentar mudar o horário.
Reconhecer uma função adquirida não significa dizer que alguém escolheu sofrer para obter vantagem. A atividade pode ser desejada, produzir renda, cansar e oferecer apoio ao mesmo tempo. A pergunta acompanha essa composição sem decidir que uma dessas dimensões seria a verdadeira e que as demais serviriam apenas de justificativa.
O horário que estava disponível
A diferença entre as noites alcança aquilo que poderia acontecer no tempo liberado. Pode haver uma conversa adiada, o silêncio depois de uma separação ou uma decisão que deixou de ter data. A tarefa adicional talvez mantenha algo à distância; talvez também forneça uma maneira provisória de atravessar esse período. O sentido depende de qual situação apareceu ao se interromper o expediente.
Há uma diferença em relação à dificuldade de descansar depois de parar. Nessa experiência, a atividade pode ter cessado e a exigência continuar, inclusive avaliando a qualidade da folga. Na quinta-feira deste relato, o que pede atenção é a procura de uma nova tarefa. Interessa o que a ocupação oferece naquele momento, em vez de presumir apenas a persistência de uma ordem para produzir.
O alívio ao continuar também merece ser discriminado. Ele pode vir de atender um prazo esquecido ou de evitar uma cobrança concreta. Pode, em outra situação, acompanhar o adiamento da saída. Perguntar em que instante o alívio surgiu ajuda a conservar essas diferenças; chamar tudo de fuga faria desaparecer aquilo que a expressão pretendia esclarecer.
Parte desse tempo pode estar presa a atividades que seria possível distribuir. A dificuldade de passar uma tarefa adiante sem continuar retendo algo dela permite examinar essa organização por outro ângulo. Quando o que incomoda é o horário que ficaria disponível, transferir o trabalho pode resolver a distribuição e abrir uma questão sobre o que se faria fora dela.
Também um projeto concluído pode liberar um intervalo antes ocupado por urgências. O descompasso entre alcançar uma meta e sentir satisfação é uma experiência vizinha. Aqui, pode haver satisfação com o resultado e, ainda assim, dificuldade de situar o tempo que ele deixou livre. A função organizadora do percurso pode precisar ser examinada sem negar o valor da conquista.
Mudar o expediente e acompanhar o que muda
Limitar horários e distribuir responsabilidades pode ser necessário diante de uma sobrecarga. Uma leitura clínica não deve justificar a manutenção de condições prejudiciais porque o trabalho oferece algum apoio. A mudança pode produzir alívio e tornar mais visível uma dificuldade que antes encontrava acomodação na rotina. Reconhecer esse efeito permite incluí-lo no cuidado, em vez de tomá-lo como prova de que sair mais cedo foi um erro.
Para algumas situações, há respostas fora da análise: rever uma exigência contratual, obter ajuda para responsabilidades de cuidado, reconstruir oportunidades de convivência. Conhecer essas condições ajuda a distinguir uma disponibilidade apenas aparente de um tempo que poderia receber outra destinação. A escuta não precisa transformar falta de alternativas materiais em decisão inconsciente.
Quando alguém chega dizendo que usa o trabalho para fugir, a formulação pode ser acolhida sem ser confirmada de saída. Como a pessoa chegou a esse nome? Ele descreve a quinta-feira ou passou a explicar a vida inteira? Uma interpretação crítica sobre si pode fechar a conversa justamente no ponto em que seria possível distinguir duas noites e reconhecer a situação particular de cada uma.
O trabalho analítico pode acompanhar essas diferenças sem estabelecer de antemão uma redução da ambição ou o abandono de um projeto. As sessões acontecem online, em português ou inglês, com frequência e condições definidas caso a caso. A procura pode partir de uma jornada que se prolonga; o que será possível formular depende também do que aparece ao falar do momento em que ela poderia terminar.
A saída que ficou suspensa
Na terça, a tarefa pôde esperar. Na quinta, o arquivo ofereceu mais uma hora antes de sair, e foi nesse intervalo que apareceu uma diferença ainda sem nome. O que se tornou mais fácil ao permanecer, e que relação com a noite fora do expediente começou a ser organizada quando uma pendência pequena passou a ter mais urgência do que tinha durante a tarde?
Uma conversa inicial permite situar essa questão na história e nas condições atuais de quem procura atendimento. Nela se examina também a pertinência da análise e se combinam as condições para o trabalho.
Cláudio Kazuo Akimoto Júnior, psicólogo (CRP 06/125905) e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP.