Não conseguir delegar
Não conseguir delegar: o critério que não sai junto com a tarefa
A tarefa foi passada na segunda-feira, com contexto, prazo e um exemplo do que já tinha sido feito antes em situação parecida. Na quarta chega a primeira versão. Está correta. Cumpre o que foi pedido, não tem erro, e poderia seguir assim. A pessoa lê, sente algo que não sabe nomear, responde que vai dar uma olhada, e às onze da noite está reescrevendo. Não reescreve tudo. Reescreve as passagens em que o texto está apenas correto, e ao terminar não consegue explicar, em palavras que sustentem uma conversa, o que exatamente estava errado antes.
No dia seguinte devolve com a observação de que fez alguns ajustes. A outra pessoa agradece. E fica estabelecido, sem que ninguém tenha combinado, que aquele tipo de coisa passa por ela. Meses depois, quando alguém pergunta por que ela trabalha tanto, a resposta vem pronta: não tem a quem passar.
Há casos em que a dificuldade persiste mesmo quando confiança e competência alheia não parecem ser o problema. A pessoa sabe quem faria bem, transmite contexto e prazo, e organiza processos complexos sem dificuldade quando o assunto é o de outro. O ponto que interessa aqui é mais estreito: a tarefa foi formalmente delegada, mas alguma parte dela continua retornando para as próprias mãos sem que se consiga formular por quê.
Quando o critério explícito não basta
Critérios podem ser escritos, exemplos podem ser dados e o processo pode ser documentado. Ainda assim, há situações em que a versão que cumpre o que foi explicitamente pedido não passa. O problema começa exatamente nesse intervalo entre o critério que se consegue transmitir e aquele que aparece apenas no momento de julgar a entrega.
Esse intervalo não prova que o critério seja irracional nem que toda dificuldade de delegar tenha origem subjetiva. Pode haver conhecimento tácito, experiência difícil de formalizar e exigências técnicas reais. A pergunta só muda de plano quando tudo isso já foi considerado e ainda permanece uma exigência que não se consegue colocar em palavras.
Nesse ponto, discutir apenas se o padrão é razoável pode não avançar muito. A pessoa pode reconhecer que parte da exigência é difícil de justificar e, mesmo assim, sentir que a versão correta ainda não pode seguir. O que interessa é o momento em que esse “ainda não” aparece.
Um pedido que se dirige a alguém
Vale então perguntar outra coisa: de onde veio a exigência de que aquela passagem não estivesse apenas correta. Quem a formulou. Às vezes a resposta é que ninguém a formulou de maneira direta: o chefe não pediu aquilo, o cliente talvez nem notasse a diferença, e a organização aceitaria a versão anterior. Isso não encerra a questão; apenas torna menos suficiente tratá-la como requisito técnico explicitamente recebido.
Lacan trabalha longamente a distinção entre demanda e desejo, e ela é útil aqui sem que seja preciso nenhum vocabulário especial. Uma demanda é sempre endereçada: pede-se alguma coisa a alguém, e o que se pede tem forma articulável, um objeto que pode ser nomeado. O desejo não coincide com essa forma. Ele insiste para além do que foi pedido, de modo que o atendimento da demanda não o encerra, e é por isso que se pode receber exatamente o que se pediu e continuar em falta.
Aplicado a esta cena, isso desloca o problema de lugar. Nem todo o resto é necessariamente técnico. Quando critérios explícitos já foram transmitidos e ainda assim permanece uma exigência difícil de formular, vale investigar se há também outra dimensão em jogo. A pergunta deixa de ser apenas “qual é o padrão correto?” e passa a incluir: quando se refaz aquele parágrafo à meia-noite, a quem se está respondendo?
Isso não vem com resposta pronta, e não se trata de descobrir que o padrão é excessivo e simplesmente baixá-lo. Trata-se de saber melhor o que está sendo respondido naquela cena. Enquanto isso permanece opaco, delegar pode ser vivido como abandono de um posto que não se sabia estar ocupando, e o argumento de eficiência pode ter pouco alcance.
Pode aparecer ainda uma possibilidade mais desconfortável: a de que a entrega saia suficientemente bem sem o retoque. Isso não prova que todas as horas anteriores tenham sido desnecessárias, mas abre a pergunta sobre quantas delas estavam respondendo a uma exigência diferente da qualidade declarada.
O critério e o destinatário
Numa análise, a discussão técnica sobre gestão não precisa ser o centro. O material pode estar no detalhe da cena: o que exatamente foi sentido ao ler a primeira versão, antes de qualquer avaliação técnica; que palavra veio à cabeça; o que se disse a si mesmo ao decidir que ia dar uma olhada. Esses fragmentos, quando voltam, começam a compor uma figura.
Interessa também a escolha do que se retém. Ninguém refaz tudo. Refaz-se um tipo específico de passagem, e não outro. Por que aquela e não outra é uma pergunta produtiva, e a resposta pode não coincidir com o risco objetivo da tarefa.
Compreender intelectualmente o padrão não é o mesmo que modificar a posição que o sustenta. Por isso, a repetição ao longo do trabalho importa: é nela que se torna possível distinguir o que já se sabe explicar daquilo que continua retornando apesar da explicação.
Se a tarefa realmente saísse das mãos
Delegar pode melhorar com processos mais claros, critérios explícitos e treinamento. Quando isso não basta, não é necessário concluir que o problema seja “psicológico” em oposição ao técnico. As duas dimensões podem coexistir.
No atendimento online, em português ou em inglês, o material começa no detalhe que sobra depois de todo o procedimento bem feito: o ponto que precisa ser refeito, a justificativa para retomar a tarefa, a pessoa diante de quem um trabalho “bom o bastante” continua parecendo insuficiente.
A distinção lacaniana entre demanda e desejo ajuda apenas se abrir a investigação, não se substituir a resposta. O que exatamente está sendo pedido naquela correção, e a quem, continua sendo uma questão do caso.
Se a tarefa saísse das mãos sem que o critério desaparecesse, talvez ficasse mais claro o que, até então, precisava continuar passando por elas.
Cláudio Akimoto é psicólogo e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP, e atende online em português e em inglês.