Blog - Cláudio Akimoto

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Não conseguir descansar

Não conseguir descansar: quando a folga precisa dar certo

Considere um sábado em que o computador ficou fechado. As mensagens não foram consultadas, nenhum trabalho foi levado para casa e a tarde transcorreu sem interrupções. Houve uma caminhada, uma conversa agradável, tempo disponível. À noite, porém, a pessoa considera que descansou mal. Esperava chegar àquele horário mais tranquila e passa a refazer mentalmente as escolhas do dia, procurando onde teria desperdiçado a folga.

A dificuldade de não conseguir descansar pode aparecer nessa avaliação, depois de uma interrupção que efetivamente aconteceu. A pessoa respeitou o limite do expediente, mas o intervalo recebeu uma tarefa: produzir certo estado, de preferência verificável antes do fim do dia. O descanso passa a ser acompanhado como algo cuja execução precisa ser corrigida.

Há outras dificuldades de repousar, ligadas à falta de tempo, às responsabilidades de cuidado ou à exigência de continuar disponível. Elas pedem atenção às condições materiais. A cena deste sábado permite examinar uma situação mais delimitada: existe espaço para a pausa, o trabalho parou, mas permanece uma relação de fiscalização com o que acontece nesse espaço.

O que se pede a uma tarde livre

Recuperar forças é uma expectativa compreensível. Esperar que o intervalo compense uma semana desagradável é diferente. Pedir que ele demonstre que a vida está bem organizada acrescenta outra exigência. Reunidas sob a palavra descanso, essas expectativas podem tornar difícil reconhecer um efeito parcial: a caminhada foi boa, mas a tarde é descartada porque não respondeu a tudo o que havia sido colocado nela.

O critério pode aparecer durante a atividade. A pessoa se pergunta se escolheu o melhor passeio ou se deveria ter ficado em casa, se o encontro durou demais, se a leitura estava suficientemente distante do trabalho. Uma escolha que parecia possível passa a ser comparada com todas as outras, sem que exista ocasião de experimentar qualquer uma delas sem revisão.

Em outra situação, a avaliação vem depois. Enquanto assistia a um filme, havia interesse. Ao levantar, aparece a conta das horas e o pensamento de que teria sido mais útil fazer alguma coisa diferente. A experiência agradável não desaparece, mas perde lugar no relato. Para entender o incômodo, importa separar o que aconteceu na tarde do que se passou a exigir dela quando terminou.

A ordem de relaxar encontra aqui uma dificuldade concreta. É possível reservar o horário e interromper uma atividade; o efeito dessas condições não obedece da mesma maneira à decisão. Quando essa diferença é tomada como incompetência pessoal, descansar acrescenta um dever sobre o qual a pessoa dispõe de pouco comando, embora continue se cobrando como se dependesse apenas de fazer direito.

A autorização recebida

Voltemos ao início do sábado. O prazo foi atendido, a distribuição das responsabilidades estava combinada e quem poderia pedir algo concordou com a folga. A autorização parece suficiente no plano do trabalho. Na avaliação noturna, entretanto, a pessoa ainda precisa demonstrar que mereceu ou aproveitou corretamente aquela autorização. Que obrigação foi encerrada, e qual continuou em funcionamento?

Em O mal-estar na civilização, Freud distingue o temor da autoridade externa da relação com a instância crítica que chama de supereu. Diante da primeira, renunciar à ação proibida pode evitar a punição. Com a interiorização da autoridade, o desejo também pode ser submetido à censura, mesmo sem ter sido realizado e sem depender de alguém descobri-lo. A vigilância passa a operar para além da fiscalização atual exercida por outra pessoa.

Essa distinção permite formular uma hipótese sobre a cena, sem converter qualquer descanso difícil em exemplo de um mecanismo universal. Talvez a permissão exterior tenha interrompido a tarefa, mas não a necessidade de prestar contas. Nesse caso, o intervalo pode encontrar um novo modo de satisfazer a exigência: é preciso descansar corretamente. A obrigação muda de objeto sem que a relação com ela tenha sido examinada.

Nomear a instância crítica não substitui a investigação. Interessa escutar que prestação de contas a pessoa imagina dever, em que termos a apresenta e quais experiências são desqualificadas por ela. Tampouco se trata de localizar alguém do passado e atribuir-lhe todo o comando presente. A distinção freudiana abre uma diferença entre modalidades de autoridade; a história particular dessa diferença precisa ser construída na fala.

O descanso escolhido e o descanso esperado

Uma pessoa prefere uma atividade intensa e se censura porque deveria querer silêncio. Outra gostaria de ficar em casa, mas considera isso prova de que não sabe aproveitar a vida. O conflito pode estar na distância entre a escolha possível naquele dia e uma imagem de descanso correto, cuja origem ainda não foi discutida. Até a recomendação de ter lazer pode passar a ser recebida como norma a obedecer.

Essa norma pode envolver uma companhia específica. A tarde foi esperada como ocasião de encontro, e estar sem tarefas não responde à ausência de quem deveria estar ali. Se a expectativa fica fora da conversa, o desencontro pode ser descrito apenas como incapacidade de relaxar. Escutar o que se esperava preserva a dimensão de relação, em vez de devolver tudo a um problema de administrar o próprio estado.

O afeto também importa. A culpa por não estar produzindo envolve uma acusação que pode comparecer na pausa. Neste sábado, o incômodo pode ser outro: irritação por não estar mais calmo, decepção com o passeio, atenção ao efeito de cada escolha. Falar desses detalhes impede que a culpa se torne a explicação prévia de qualquer relação difícil com o tempo livre.

Também vale verificar quanto da pausa foi possível. Alguém pode ter interrompido as próprias tarefas e continuar acompanhando o trabalho distribuído. A dificuldade de deixar o critério sair junto com uma atividade delegada permite situar essa condição. Nesse caso, há uma vigilância ainda ligada ao expediente, diferente da fiscalização de uma tarde em que o trabalho realmente cessou.

Retomar a avaliação da noite

Ao dizer que o sábado foi perdido, a pessoa talvez esteja comparando o que viveu com o estado que esperava atingir. A pergunta clínica acompanha essa comparação: quando a calma passou a ser exigida, o que ela deveria demonstrar e a quem seria apresentada? Um relato pode mudar quando se distingue ter gostado de algo de ter obtido o resultado que se pedia àquilo.

Isso não institui uma nova maneira correta de descansar. Dizer que a pausa deve dispensar avaliação poderia se tornar mais uma regra, agora sobre como se deveria experimentar a liberdade. A escuta procura acompanhar o modo singular de exigir, inclusive quando a pessoa sabe discutir criticamente esse modo e continua submetida a ele na tarde seguinte.

Os limites concretos do expediente continuam pertinentes. Reduzir interrupções e rever uma carga excessiva pode ser necessário para que exista repouso possível. Essas medidas não competem com investigar a exigência; tampouco podem ser substituídas por uma leitura que responsabilize a pessoa por uma jornada inviável. Se a condição mudou, a conversa precisa incluir essa mudança antes de supor uma dificuldade interna.

Repousar e continuar fisicamente cansado pede uma investigação própria. Alterações persistentes de sono, fadiga e outros sintomas físicos merecem avaliação médica. A cena de um descanso julgado insuficiente não permite concluir que o corpo já tenha se recuperado nem explicar por uma hipótese psíquica aquilo que também exige cuidado orgânico.

No atendimento online, em português ou inglês, é possível partir da descrição desse sábado e das tentativas feitas para descansar. Frequência e condições são combinadas caso a caso. O percurso pode acompanhar o que se repete na avaliação sem estabelecer uma quantidade ideal de lazer ou cobrar da pessoa a capacidade de apresentar um descanso bem-sucedido.

O que ficou fora da nota

A caminhada e a conversa agradável participaram da tarde, mesmo que não tenham produzido a tranquilidade esperada. Ao chamar o sábado de perdido, o que a pessoa ainda precisa receber dele, e que lugar pode ter aquilo que aconteceu antes de o descanso passar a responder por um resultado?

Uma conversa inicial serve para conhecer a dificuldade concreta, as tentativas já feitas e o que se espera de um atendimento. A partir dela se avalia a pertinência da análise e se define o enquadre.

Cláudio Kazuo Akimoto Júnior, psicólogo (CRP 06/125905) e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP.