Medo de ser descoberto como fraude
Medo de ser descoberto como fraude: quando o crédito não adere
A promoção saiu numa quinta-feira. As mensagens chegaram ao longo do dia, algumas de gente que não escrevia há meses, e todas foram respondidas com cordialidade.
À noite, a pessoa abre o arquivo do último trimestre e procura ali o que teria justificado aquilo. Encontra duas decisões que deram certo por razões que não controlava, uma apresentação que funcionou porque o outro lado já vinha decidido, e uma sequência de semanas em que fez o que era possível fazer no tempo que havia. A conclusão que se forma não é modéstia, e quem a formula sabe disso.
É a impressão de que houve um erro de leitura, que o erro ainda não foi notado, e que o intervalo entre agora e a hora em que for notado é o que existe de futuro.
Esse cálculo pode reaparecer a cada entrega. Não é constante, é episódico e preciso: aparece na véspera de uma reunião com gente mais antiga, ou na semana em que chega alguém novo e é preciso explicar como as coisas funcionam. Fora desses momentos a pessoa trabalha bem, e é por trabalhar bem que a coisa se sustenta. O medo não impede o rendimento. Ele corre ao lado.
Vale separar isso de coisas próximas, sem supor que sejam excludentes. Não se reduz a baixa autoestima: alguém pode reconhecer competência em várias áreas e ainda assim não conseguir apropriar-se do crédito por determinado resultado. Não é falsa modéstia, porque não há plateia no momento em que o cálculo é feito. E não se reduz a medo de errar, que teria por objeto um evento futuro, enquanto o objeto aqui é algo que já teria acontecido e estaria apenas por ser notado.
O termo mais usado para nomear isso vem de um estudo clínico de 1978, em que Pauline Rose Clance e Suzanne Imes descreveram, a partir do atendimento de mulheres com alto desempenho, o que chamaram de fenômeno do impostor: a incapacidade de assimilar internamente a própria realização, atribuída a sorte, erro de avaliação alheia ou esforço excessivo. Convém notar que as autoras o descreveram como fenômeno, e não como diagnóstico, e que ele nunca entrou nas classificações psiquiátricas. O nome pegou porque descreve bem uma experiência reconhecível. Ele não explica o que a produz.
A prova entra e não fica
O que se observa é que a informação chega e não fica. A avaliação vem excelente, e o efeito dura algumas horas. O elogio é recebido, e em seguida se produz a explicação pela qual ele não conta: quem elogiou não viu de perto, ou é generoso, ou não teve acesso ao que deu errado no caminho. A evidência não é rejeitada, e nem sequer é discutida. Ela é processada e não adere.
Esse é um dado importante do quadro, e é o ponto em que a leitura pela via do erro de cálculo encontra seu limite. Se fosse apenas um erro de avaliação, novos dados deveriam ter algum poder de correção. Aqui, porém, os dados entram e o resultado permanece semelhante, o que sugere que a operação não é apenas de cálculo e que a competência talvez não seja o único objeto em julgamento.
Diante de que medida
Freud introduz, no texto de 1914 sobre o narcisismo, uma distinção que serve aqui. Ele propõe que o sujeito constitui para si um ideal, e que é por comparação com esse ideal que ele se mede e eventualmente se recrimina. Junto com o ideal, Freud descreve uma instância que observa e compara, encarregada de verificar se aquilo que se é corresponde ao que deveria ser. O que essa instância faz não é avaliar desempenho no mundo. É verificar uma correspondência interna.
O que essa formulação permite pensar é preciso. Se o julgamento em curso não é sobre o resultado, e sim sobre a distância entre o que se é e uma medida constituída muito antes de qualquer carreira, então nenhuma evidência de desempenho pode encerrá-lo, porque a evidência responde a outra pergunta. Uma hipótese é que o problema não esteja na quantidade de prova disponível, mas na medida diante da qual essa prova é avaliada.
Essa formulação também permite ler a assimetria entre duas versões do mesmo percurso. Há a versão que circula, feita de resultados e títulos, com forma de trajetória. E há a versão de que a pessoa se lembra, feita de improvisos, de coisas aprendidas na véspera, de perguntas que não fez para não expor que não sabia. O crédito recai sobre a primeira, e a segunda é a única acessível por dentro. Essa discrepância pode ser um dado banal da experiência. Em alguns casos, ela se organiza como acusação, e a diferença entre um caso e outro não está no desempenho.
Freud oferece coordenadas gerais para a formação dessa medida, ligando a constituição do ideal e da instância crítica à influência crítica dos pais e, depois, de educadores e do meio. O que ele não fornece é a genealogia singular daquele ideal naquele sujeito: que figuras, que frases e que identificações lhe deram sua forma específica. É essa a direção da pergunta.
A frase e o destinatário
Numa análise, a frase “vão descobrir que eu não sei nada” não é tratada como avaliação a ser verificada, verdadeira ou falsa, e sim como uma frase que alguém diz, com uma forma própria, e que pede que se pergunte de onde ela veio e a quem se dirige.
Descobrir supõe que existe algo escondido. Vale perguntar o que estaria escondido, especialmente quando os resultados não sustentam a hipótese simples de incompetência. Pode aparecer, quando se insiste um pouco, o modo como o trabalho foi feito: a hesitação, o tempo gasto, a ajuda pedida, a parte que não se dominava e foi aprendida no meio. A acusação pode recair menos sobre o resultado do que sobre o fato de ele não ter saído pronto.
E há o verbo sem sujeito. Alguém vai descobrir. Esse alguém nem sempre é um chefe determinado, e quando se tenta nomeá-lo a resposta pode demorar. Às vezes a figura vai ganhando contorno e se revela mais antiga que a carreira, alguém para quem a explicação de como se chegou ao resultado era mais decisiva do que o próprio resultado. Não é uma descoberta que se anuncie; ela pode aparecer em falas laterais, num comentário sobre a infância feito de passagem e que a pessoa não relaciona com o assunto.
A pergunta que orienta o trabalho, então, não é se a pessoa merece o que tem. É outra: em que momento merecer passou a ser algo que se demonstra, e diante de quem essa demonstração continua sendo feita. Isso não se responde com argumento. Aparece na repetição, quando as mesmas cenas voltam com pequenas variações e a variação diz o que a cena sozinha não dizia.
Se o crédito aderisse
Receber reconhecimento não é o mesmo que apropriar-se dele. Quando cada elogio precisa ser neutralizado por uma explicação, o ponto não é demonstrar mais uma vez que a pessoa merece o que conquistou; essa demonstração já aconteceu muitas vezes.
No atendimento online, em português ou em inglês, interessa acompanhar a operação pela qual a prova perde valor: que detalhe é usado para anulá-la, que figura aparece no lugar de quem julga, e por que a suspeita precisa permanecer disponível mesmo depois de resultados consistentes.
Freud oferece coordenadas para pensar a formação de uma medida interna, mas não diz, para uma pessoa específica, quais frases, identificações ou cenas lhe deram sua forma. Essa parte não pode ser preenchida pela teoria antes de aparecer na fala.
Se o crédito aderisse sem precisar ser novamente conquistado no dia seguinte, talvez não mudasse apenas a autoestima. Poderia mudar a própria função que o trabalho passou a exercer.
Cláudio Akimoto é psicólogo e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP, e atende online em português e em inglês.