Culpa por não estar produzindo
Culpa por não estar produzindo: o que ela acusa quando não há nada pendente
Sábado à tarde, a semana entregue, nada urgente até segunda. A pessoa senta para ler alguma coisa que não tem finalidade nenhuma e, depois de vinte minutos, percebe que não leu. A cabeça foi para outro lugar, e o que se instalou ali não é preocupação com um prazo, porque não há prazo. É um desconforto difuso que se comporta como acusação, e que se dissipa no instante em que ela abre o computador e responde três mensagens que poderiam esperar. O alívio é imediato e dura pouco. Meia hora depois, o desconforto volta, e volta mesmo tendo havido produção no intervalo.
O detalhe importante é este último. Se a culpa medisse apenas o que ficou por fazer, seria de esperar que cedesse quando o que ficou por fazer diminuísse. Nessa cena, porém, ela cede por alguns minutos e retorna, inclusive quando tudo foi entregue com folga. A pergunta que se abre é: se a acusação não acompanha a produção, o que ela está acusando?
A culpa não acompanha o que ficou por fazer
Vale insistir na descrição antes de qualquer explicação, porque ela é mais precisa do que parece.
Nessa forma de culpa, há um horário que chama atenção. Ela pode aparecer menos durante o expediente do que nas horas que estão fora dele e não têm destinação definida: o domingo de manhã, o intervalo entre o fim de uma coisa e o começo de outra, a semana de férias quando o corpo finalmente desacelera. É como se precisasse de um tempo vazio para se instalar, e não de um débito claramente identificável.
Ela também tem um objeto instável. Quando se pergunta o que exatamente deveria estar sendo feito naquele momento, a resposta pode não vir. Aparece uma lista, mas a lista é montada depois, para justificar o afeto que já estava lá. Os itens são intercambiáveis. Mesmo quando vários desses itens são cumpridos, outros podem surgir no lugar com urgência semelhante e produzir o mesmo alívio breve.
E ela tem uma economia própria, que é o ponto mais estranho. Produzir alivia, mas o alívio não se acumula. Uma semana muito produtiva não gera crédito para a semana seguinte. Não há saldo. Cada hora parada é cobrada como se as anteriores não tivessem existido, o que é o comportamento de algo que não está fazendo contabilidade nenhuma.
Uma acusação que não se sustenta em fatos e que não pode ser quitada por fatos pode estar operando em outra ordem. Ela usa a linguagem da produção porque essa é a linguagem disponível, do mesmo modo que a exigência que organiza o dia usa a linguagem da competência. Isso não torna a produção irrelevante; apenas impede tomá-la automaticamente como aquilo de que a culpa trata.
Culpado do quê
A palavra culpa empurra quase automaticamente para uma lógica jurídica: se há culpa, deve haver uma falta anterior, uma regra quebrada e um culpado identificável. A clínica permite suspender essa ordem. Às vezes, a acusação aparece primeiro e a lista de infrações é montada depois, como se fosse preciso encontrar um crime capaz de justificar um afeto que já estava ali.
Lacan, no seminário sobre a ética da psicanálise, sustentado entre 1959 e 1960, formula uma proposição que é útil aqui precisamente porque não é uma proposição sobre trabalho. Ele diz que, do ponto de vista da análise, a única coisa da qual se pode ser culpado é de ter cedido de seu desejo.
A frase merece ser lida devagar, porque é fácil de transformar em conselho e não é conselho nenhum. Ela não diz que se deve ir atrás do que se quer. Não diz que a culpa é sinal de que se está no caminho errado. E não diz, é importante marcar, que exista em algum ponto do passado uma coisa concreta que foi abandonada e que bastaria identificar. Ler assim é transformar uma proposição sobre a posição do sujeito em um imperativo moral, que é exatamente o que ela não é.
O que ela permite pensar é mais estreito. A formulação abre a possibilidade de perguntar se a culpa comparece no ponto em que alguma concessão na relação com o próprio desejo se tornou necessária, e de que modo essa concessão continua sendo cobrada. A pergunta deixa de ser apenas qual regra foi descumprida e passa a incluir de que modo o sujeito se posicionou diante daquilo que o movia. Não se trata de um objeto perdido nem de um projeto abandonado que bastaria identificar.
O que torna essa formulação relevante para a culpa por não produzir é o descompasso que ela permite pensar. Se a acusação fosse sobre produção, cumprir a produção a encerraria. Ela não encerra. E se ela não encerra, é possível que o trabalho tenha se tornado, ao longo dos anos, a única forma disponível de responder a uma cobrança que não era sobre ele.
Isso não fornece uma explicação. Fornece uma direção de pergunta, e a direção não é “o que você abandonou”. É outra: em nome de que essa conta continua sendo apresentada, e por que a produção passou a ser a moeda com que se tenta pagá-la.
A acusação como material numa análise
Numa análise, a culpa por não estar produzindo pode ser tomada pela forma de sua acusação: em que termos ela aparece, com que voz, diante de quem faria sentido e que gesto consegue suspendê-la por alguns minutos.
Boa parte do trabalho recai sobre a formulação exata. Nem toda culpa se enuncia igual. Há quem diga que está perdendo tempo, e há quem diga que está enrolando, e há quem diga que não está fazendo nada, e essas três frases não descrevem a mesma coisa nem vêm do mesmo lugar. Perder tempo supõe que o tempo tinha uma destinação. Enrolar supõe alguém sendo enganado. Não estar fazendo nada supõe que a existência precise ser justificada por atividade. Uma frase que se repete há muito tempo pode ter sido dita por alguém antes de ser repetida internamente.
Interessa também o que se faz nos minutos de alívio. O gesto que interrompe a culpa não é qualquer gesto. Alguém responde uma mensagem, organiza um arquivo, confere um número que já estava conferido. Por que esse gesto e não outro é uma pergunta produtiva, e a resposta pode não ter relação direta com eficiência.
Quando a cobrança perde o objeto
Se a culpa aparece justamente quando nada ficou pendente, produzir mais não consegue encerrá-la; apenas lhe oferece um objeto temporário. É por isso que o gesto de abrir uma planilha, responder uma mensagem ou adiantar uma tarefa pode aliviar e, ao mesmo tempo, conservar a própria lógica da cobrança.
No atendimento online, em português ou em inglês, interessa menos discutir se alguém “deveria” descansar do que escutar a forma precisa da acusação: qual verbo ela usa, de quem parece a voz, em que situações fica mais forte e o que precisa acontecer para que cesse por algumas horas.
Lacan não fornece aqui um teste para decidir qual desejo foi traído. A formulação sobre ceder de seu desejo serve para deslocar a pergunta da infração objetiva para a posição do sujeito diante daquilo que o move.
Quando não há crime a confessar nem tarefa a concluir, talvez a primeira mudança seja deixar de procurar uma absolvição rápida demais.
Cláudio Akimoto é psicólogo e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP, e atende online em português e em inglês.