Cheguei onde queria e não sinto nada
Cheguei onde queria e não sinto nada
O contrato foi assinado numa terça. Houve mensagem, houve jantar, houve a foto que se manda para duas ou três pessoas. E houve, na quinta-feira à noite, a constatação de que nada mudou. Não há tristeza, não há arrependimento, não há a sensação de ter escolhido errado. Há a ausência do que deveria estar ali, e a impossibilidade de dizer isso a alguém, porque a circunstância é de comemoração e qualquer formulação soa como ingratidão.
A cena descrita aqui não pressupõe que a meta tenha sido errada, nem que exista um quadro depressivo. Pode haver cansaço, tristeza ou arrependimento em situações parecidas, mas o recorte deste texto é mais estreito: mesmo depois de parte do cansaço ceder e mesmo quando a escolha continua parecendo correta, o que se esperava sentir não vem.
O que Freud observou, e o que ele não disse
Em 1916, num texto sobre alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico, Freud descreve pessoas que adoecem no momento em que um desejo longamente perseguido se realiza. A observação é dele e é precisa: enquanto o desejo permanecia distante, sustentado na fantasia, ele podia ser tolerado; quando a realidade externa torna sua realização possível, aparece uma frustração de origem interna, com forças da consciência moral que impedem o usufruto do sucesso. Freud recorre a dois exemplos literários para sustentar isso, Lady Macbeth e a Rebecca West de Ibsen, e são exemplos dele, não referências acrescentadas aqui.
É preciso dizer com clareza o que se retém e o que não se retém dessa observação. Freud está descrevendo adoecimento, casos em que a realização precipita um colapso. Não é disso que este texto trata. O que se descreve aqui é discreto: ninguém adoece, a rotina continua, o trabalho segue bem. O que se retém de Freud é uma proposição estreita, e ela basta: a realização de um desejo pode produzir o contrário da satisfação, o que permite distinguir o percurso da meta e perguntar até que ponto estiveram, de fato, do mesmo lado.
A explicação que Freud propõe para os casos que examina, pela via da instância moral que proíbe o gozo do sucesso, é a explicação dele e vale como tal. Não é preciso adotá-la como conclusão deste texto. Uma leitura clínica possível, e não uma tese de Freud, é perguntar se o desejo que sustentava o percurso coincidia inteiramente com o objetivo declarado, diferença que pode se tornar mais visível quando o objetivo deixa de estar à frente.
Enquanto a meta está adiante, ela pode organizar o dia, a decisão difícil, a renúncia que se aceita e a resposta pronta para quem pergunta o que se está fazendo da vida. A chegada muda essa posição: aquilo que servia de horizonte deixa de estar à frente e se torna examinável de outro modo.
Quando essa ausência vem acompanhada de queda persistente de ânimo, perda ampla de interesse, alteração importante de sono ou apetite, uma avaliação médica e psiquiátrica é pertinente. O recorte deste texto é a situação em que a vida continua funcionando e a pergunta nasce justamente da distância entre a conquista e a satisfação esperada.
O que a chegada torna examinável
Numa análise, essa ausência não é tratada como sintoma a ser corrigido nem como sinal de que a escolha foi errada. Ela é tratada como informação, e a primeira coisa que se examina é a expectativa: o que exatamente se esperava sentir, com que palavras isso teria sido descrito antes, e desde quando.
Vale perguntar quando a meta foi formulada pela primeira vez, e por quem. Às vezes, ao reconstruir a história de uma meta, aparece uma formulação muito anterior, feita por outra pessoa, numa frase única dita de passagem, que ficou. Isso não invalida a meta nem a torna alheia. Torna possível perguntar a quem a chegada deveria ter sido mostrada, e o que aconteceria se essa pessoa não estivesse mais em condições de receber a notícia, ou nunca tivesse estado.
Interessa também o que se fez nos dias seguintes. Quem trabalha no sábado imediatamente após a conquista está fazendo alguma coisa que merece exame. Quem começa a planejar a etapa seguinte na mesma semana também. O gesto que se faz para não ficar diante do vazio é um gesto específico, e a especificidade dele diz mais do que a descrição do vazio.
Há uma diferença de regime que pesa. No expediente, falar é falar para algum efeito, e cada frase é medida por ele. Numa análise, o que interessa é o que não estava no plano do que se ia dizer, a palavra que aparece no lugar de outra, o assunto que se contorna sempre pelo mesmo lado. É daí que vem o que se elabora, e não do que se conseguiu formular bem.
Depois da chegada
A ausência de euforia não obriga ninguém a desmontar a vida que construiu. Também não prova que a meta era “de outra pessoa”. Ela cria uma ocasião rara em que o objetivo, já realizado, pode ser examinado sem a proteção que a distância oferecia.
No atendimento online, em português ou em inglês, o trabalho pode começar justamente dessa discrepância entre o que aconteceu e o que se esperava sentir. Se houver queda persistente de ânimo, perda ampla de interesse ou alterações importantes de sono e apetite, avaliação médica e psiquiátrica também é indicada.
Às vezes a chegada revela que havia mais de um destinatário naquela meta. Às vezes revela que o movimento importava mais do que o ponto final. E às vezes não revela nada imediatamente, o que também impede uma conclusão apressada.
A pergunta deixa de ser “qual deve ser a próxima meta?” e passa a incluir outra: o que se tornava possível enquanto ainda havia algo a alcançar.
Cláudio Akimoto é psicólogo e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP, e atende online em português e em inglês.