Sensação de estar sempre atrasado
Sensação de estar sempre atrasado: quando cumprir o prazo não resolve o atraso
A entrega estava marcada para sexta e foi concluída na quinta. O compromisso seguinte também está encaminhado. Ao olhar a agenda, seria possível dizer que a semana terminou em dia. Mas, quando a conversa passa do calendário para a própria vida, aparece outra conta: a mudança que deveria ter acontecido antes, o dinheiro que já deveria estar guardado, a posição que continua descrita como provisória. A sensação de estar sempre atrasado pode conviver com uma vida pontual, sem que cumprir os compromissos altere essa experiência.
Há duas cronologias nessa descrição. Uma permite verificar datas e resultados. A outra situa a pessoa em relação a uma história esperada, que pode ser precisa quanto à idade das conquistas e pouco clara quanto à origem dessa distribuição. Organizar a agenda responde à primeira; o desconforto pode estar organizado na segunda, na distância entre o que aconteceu e o que já deveria ter acontecido.
As condições materiais participam das duas. Uma formação interrompida por falta de recursos ou anos dedicados ao cuidado de alguém têm consequências para as oportunidades disponíveis. Interessa conservar essas diferenças quando acontecimentos tão distintos passam a receber uma mesma legenda: ainda não cheguei. Que chegada permitiria modificar a leitura do percurso?
As datas que entram na conta
Imagine duas maneiras de contar os mesmos cinco anos. Na primeira, houve uma mudança, um período de aprendizagem, um projeto que se encerrou e uma escolha que só se tornou possível depois dele. Na segunda, foram necessários cinco anos para chegar ao ponto em que já se deveria estar. A duração permanece igual, mas o vínculo entre os acontecimentos muda. O que participava da história passa a ser tratado como tempo desperdiçado antes de ela começar.
Essa segunda narrativa pode excluir as circunstâncias que tornavam uma decisão difícil. Avalia-se o que foi feito com o conhecimento adquirido depois, como se ele estivesse disponível desde o começo. Uma hesitação que envolvia riscos passa a parecer incompetência; um compromisso que importava torna-se apenas o obstáculo que atrasou outra coisa. A conta retrospectiva adquire uma exatidão que a situação vivida não possuía.
Escutar essa diferença não significa declarar que as escolhas foram boas. Pode ter havido uma omissão da qual se discorda e cujas consequências continuam presentes. Localizar esse acontecimento, porém, abre uma conversa diferente daquela em que o percurso inteiro se transforma numa demora. Quando tudo se resume a atraso, até as condições para decidir passam a ser julgadas como falhas de quem decidiu.
A idade escolhida como referência merece atenção. Por que algo deveria ter acontecido aos trinta e não aos trinta e cinco? A resposta pode remeter a uma exigência concreta, a uma oportunidade com prazo. Pode também começar por uma frase ouvida em casa, uma promessa feita sem data e depois convertida em calendário. Reconstruir a origem desse marco permite examinar o que ainda depende dele, inclusive quando permanece importante para a ambição que a pessoa quer sustentar.
Esperar e concluir
Uma decisão pode ser tomada numa hora e ter sido preparada durante anos. Também pode permanecer adiada por anos sem que a passagem dos dias acrescente aquilo que falta para tomá-la. Duração e elaboração se encontram, mas não são intercambiáveis. Essa diferença interessa sobretudo quando a pessoa reconhece que já dispõe das informações necessárias e continua esperando uma condição que tem dificuldade de nomear.
Em O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada, de 1945, Lacan constrói um problema em que três participantes precisam concluir algo sobre si a partir do que veem e das hesitações dos outros. O intervalo participa do raciocínio: a espera de alguém pode permitir ao outro uma inferência, e a possibilidade de ser ultrapassado intervém na urgência de concluir. Ele distingue instante de ver, tempo para compreender e momento de concluir, cuja função lógica não se reduz à duração medida no relógio.
A formulação torna pensável uma conclusão que se constitui na relação entre participantes, em vez de simplesmente ocorrer quando uma quantidade suficiente de minutos passou. O problema lógico tem condições próprias; transpô-lo diretamente para a vida produziria uma falsa cartilha de amadurecimento. A aproximação clínica proposta aqui conserva uma pergunta mais restrita: que participação têm a espera e o avanço atribuídos aos outros no momento em que alguém julga que já deveria ter decidido?
Conhecer outra trajetória pode esclarecer uma possibilidade. Pode também precipitar a ideia de que o próprio tempo de compreender terminou, embora o que estava em questão ainda não tenha sido formulado. Há diferença entre aproveitar uma ocasião que se abriu e tentar reparar, com uma decisão urgente, o fato de outra pessoa ter chegado antes. Só os acontecimentos e a maneira de contá-los permitem situar essa diferença.
A chegada que vira outra demora
Uma conquista pode ser recebida com satisfação e, na frase seguinte, perder parte do valor porque veio tarde. É uma experiência diferente da ausência de satisfação depois de alcançar uma meta. O resultado importa, mas entra na história acompanhado de um desconto temporal: aquilo seria bom se tivesse acontecido cinco anos antes. A chegada passa a confirmar que houve demora, em vez de alterar a conta.
O movimento seguinte pode ser acelerar. Antecipar outra etapa, acumular compromissos, tentar recuperar no presente o tempo julgado perdido. Esse esforço pode responder a necessidades reais. Quando a medida é refeita a cada conquista, entretanto, vale perguntar o que permitiria reconhecer um ponto de chegada, já que a data exigida deixou de ser alcançável antes de a tentativa começar.
A culpa que aparece quando nada ficou por produzir pode acompanhar essa pressa, sem explicar todas as suas formas. Alguém pode descansar sem culpa e considerar tardia uma decisão particular. Pode produzir continuamente e continuar sem saber em relação a que marco está atrasado. Examinar a data preserva uma questão que a expressão trabalhar mais deixaria sem nome.
Há ainda situações em que o reconhecimento recebido é aceito. A pessoa acredita no elogio, considera o trabalho bom e, mesmo assim, acha que ele deveria pertencer a uma etapa anterior. Nesse ponto, a queixa se distingue do crédito que não adere apesar das provas de competência. O valor pode estar reconhecido; o que permanece em disputa é quando se tinha o direito de atribuí-lo ao próprio percurso.
Contar os anos em duas versões
Uma conversa pode começar com a afirmação de que foram perdidos dez anos. Ao longo dela aparecem responsabilidades e relações que não cabiam nessa primeira soma. O trabalho de escuta acompanha essa mudança sem substituí-la por um balanço positivo. Interessa perceber quais acontecimentos receberam o nome de perda, quais ficaram fora do relato e diante de quem aquele período precisaria ser justificado.
O modo de contar também alcança o futuro. Se uma etapa é descrita como compensação da anterior, o projeto seguinte pode ficar encarregado de corrigir algo que já terminou. O que seria desejável nele recebe menos atenção do que sua capacidade de provar que a demora foi recuperada. Essa é uma possibilidade a investigar, não uma interpretação geral da ambição ou de quem mantém prazos exigentes.
Em outra história, continuar atrasado pode preservar uma escolha sem assumi-la. Enquanto se diz que ainda não chegou a hora, permanece disponível uma possibilidade cuja realização exigiria abrir mão de outras. O adiamento pode então pedir uma conversa sobre a decisão, e não sobre produtividade. A pressa, por sua vez, pode tornar difícil reconhecer que certa oportunidade efetivamente se encerrou. Essas posições precisam ser distinguidas a partir do caso.
Planejar e conhecer as condições reais de progressão ajudam a situar o que é viável. A análise pode trabalhar com o modo de formular esses prazos, especialmente quando o planejamento funciona e a experiência de atraso permanece. O relato de uma decisão oferece material diferente do calendário: o que se sabia naquela ocasião, o que se tentou preservar e como aquilo passou a ser lembrado.
Esse trabalho acontece online, em português ou inglês. Frequência e condições das sessões são definidas caso a caso; o tempo da investigação não é estabelecido como mais um prazo que a pessoa precisa cumprir. A questão pode começar no trabalho e alcançar outros marcos, sem que se suponha uma única origem para todos eles.
Que história cabe na data
Na quinta-feira da entrega, a agenda estava em dia. A afirmação de que a vida continuava atrasada dependia de outra medida, que ainda precisava ser contada. Que acontecimentos deixam de ter lugar quando o percurso inteiro é lido a partir de uma chegada que deveria ter ocorrido antes, e o que permanece importante nessa chegada quando se devolve à história o tempo em que ela foi possível?
Uma conversa inicial permite situar como essa questão aparece, o que levou à procura e se o trabalho analítico é adequado para abordá-la. Nesse encontro se combinam também as condições de continuidade.
Cláudio Kazuo Akimoto Júnior, psicólogo (CRP 06/125905) e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP.