Blog - Cláudio Akimoto

mudar-de-pais-por-trabalho Mudar de país por trabalho - Claudio Akimoto - (11) 9 8388-8689: Psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP.

Mudar de país por trabalho

Mudar de país por trabalho: o que continua funcionando quando o resto recomeça

A proposta chegou boa e foi aceita por razões que continuam boas seis meses depois. Os primeiros meses se organizaram sozinhos, porque havia uma lista: documento de residência, conta em banco, contrato de aluguel, seguro, escola, o número que se pede em toda repartição e que ainda não se decorou. A lista tem fim, e é quando ela termina que aparece a coisa que não estava prevista.

Não é arrependimento, e quem passa por isso faz questão de dizer que não é. As razões da mudança seguem de pé, o lugar é melhor do que se esperava em vários aspectos concretos, e mesmo assim há um sábado à tarde em que uma diferença ganha relevo: o trabalho é a esfera que continua mais reconhecível.

O trabalho continua. Ele tem horário, tem estrutura, tem gente, tem uma medida de desempenho que se lê sem tradução. Todo o resto recomeçou do zero e recomeçou devagar, porque amizade não se produz em prazo e porque as horas disponíveis para isso são as que sobram. Quem chega por carreira nem sempre descreve isso como solidão, o que seria uma palavra grande demais para uma vida cheia de compromissos. Descreve de outro modo, mais preciso e mais difícil de explicar: que só há um lugar onde se é reconhecível.

O que a mudança suspende

A conversa sobre morar fora se concentra em língua e em distância, e as duas importam. Mas há uma terceira coisa, menos evidente, que a mudança suspende de uma vez: os laços que não precisavam ser produzidos. A família que estava a uma distância que se percorre num sábado. Os amigos de vinte anos, com quem não é preciso explicar nada porque estiveram lá quando aquilo aconteceu. A instituição a que se pertence, a faculdade, o time, o grupo que se frequenta desde sempre. A cidade em que se é alguém antes de dizer o que se faz.

Nada disso era mérito. Estava dado, e por estar dado não aparecia. No lugar novo, cada um desses vínculos precisa ser construído, e construído com o que resta depois do expediente, o que na prática significa muito devagar. Enquanto isso, há uma coisa que chegou pronta, com crachá e agenda: o trabalho. Ele não pede adaptação lenta, pede entrega, e entrega é o que já se sabe fazer.

O efeito é discreto e tem consequência. A vida se organiza em torno da única esfera que responde de imediato, e ela responde bem. O rendimento pode subir, o reconhecimento profissional pode vir, e a mudança se confirmar como acerto por critérios concretos. E o que fica de fora não produz crise, produz uma pergunta que não encontra hora para ser feita, sobre o que sustenta alguém nas horas em que não se está rendendo.

Uma perda sem objeto declarado

Freud descreve, em Luto e melancolia, o que acontece quando se perde alguém ou alguma coisa a que se estava ligado. O trabalho do luto, na sua formulação, é lento e custoso por uma razão específica: cada lembrança, cada expectativa, cada hábito ligado ao que se perdeu precisa ser reencontrado e desinvestido um a um. Não se trata de aceitar de uma vez; trata-se de um trabalho parcelado, que consome tempo e disposição, e que corre em segundo plano enquanto a vida continua.

O que essa formulação permite pensar aqui não é que mudar de país seja uma perda no sentido comum, porque não é: ninguém morreu, nada foi arrancado, a decisão foi tomada por quem se mudou e continua sendo considerada acertada. O que ela permite pensar é a estrutura do gasto. Uma quantidade grande de laços deixou de existir em ato, e cada um deles pode ter, no cotidiano, seu ponto de retorno: a hora em que se ligaria para alguém, o programa de domingo que era com aquelas pessoas, a data que só faz sentido no fuso de origem. Cada um desses pontos exige uma reorganização do investimento que antes estava sustentado pela presença cotidiana, e isso não acontece por decisão.

Freud também observa que, no luto, o mundo é que fica empobrecido, e é isso que distingue essa configuração do quadro melancólico, em que o empobrecimento recai sobre o próprio sujeito. A distinção vale ser retida aqui, porque protege contra um mal-entendido: o que se descreve neste texto não é um estado clínico, é uma situação em que um trabalho está em curso e não aparece na conta de ninguém, nem na de quem se mudou.

E há uma segunda pergunta, que não aparece nos primeiros meses. Além da oportunidade, que era verdadeira, do que mais aquela mudança se encarregou. Uma decisão pode ser inteiramente acertada e ainda assim executar mais de uma coisa ao mesmo tempo, encerrar uma conta, produzir uma distância que já se queria e que não teria como ser pedida. Isso não é uma acusação nem uma interpretação do caso; é uma possibilidade que vale ficar aberta.

Com o tempo, muita coisa ligada à adaptação muda: a burocracia vira rotina, a língua custa menos, surgem lugares conhecidos e vínculos locais. O tempo, porém, não resolve automaticamente aquilo que a mudança apenas tornou mais visível. Um critério de valor pode atravessar a fronteira intacto, e isso aparece quando alguém começa a avaliar a própria vida no novo país como avalia um projeto: se está rendendo o esperado, se o prazo de adaptação foi cumprido, se o investimento se justifica.

O que a mudança põe em trabalho

Numa análise, a mudança não é tratada como evento a ser processado, com fases a cumprir. Ela é tratada como o que é, um deslocamento que reorganizou tudo menos uma coisa, e o trabalho começa por aí.

O material aparece em detalhes que não se contam para mais ninguém, porque não rendem conversa. O que se diz quando alguém pergunta há quanto tempo se está no país, e a variação dessa resposta ao longo dos anos. A frase que se repete nas ligações para o Brasil. O modo como se conta a mudança para quem ficou, que pode não ser o mesmo com que se conta para quem está no país novo. O que se decidiu não dizer em casa para não preocupar. As datas que continuam sendo marcadas pelo fuso de origem.

Há também o efeito da língua, e ele não é acessório. Para algumas pessoas, certas coisas só chegam a ser ditas em português, não por limitação de vocabulário, mas porque foi em português que elas se disseram pela primeira vez. Isso não faz da língua um conforto. Faz dela uma condição possível de trabalho, e é uma das razões pelas quais a continuidade de uma escuta em português pode importar mais do que a proximidade geográfica de quem escuta.

Um enquadre que também atravessa fronteiras

O atendimento é integralmente online, em português ou em inglês. Isso permite manter o trabalho durante mudanças de país, viagens e retornos, sem exigir que a vida já esteja estabilizada para que a análise continue. Diferenças de fuso e frequência são combinadas no enquadre.

Para algumas pessoas, trabalhar em português importa menos por conforto do que pela história das próprias palavras. Para outras, falar em inglês abre deslocamentos que não apareceriam do mesmo modo. A língua não é escolhida como regra teórica; ela é parte do material.

O que atravessa a fronteira

Com o tempo, novos vínculos podem se formar e a cidade pode deixar de parecer provisória. Isso não responde automaticamente à pergunta que a mudança tornou visível: por que justamente o trabalho chegou pronto para ocupar o espaço que os outros laços deixaram em suspenso.

Voltar, ficar ou mudar outra vez são decisões concretas. A análise não decide nenhuma delas. Pode, porém, separar a decisão da obrigação de provar que a mudança “deu certo”.

Cláudio Akimoto é psicólogo e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP, e atende online em português e em inglês.