Blog - Cláudio Akimoto

crise-de-ansiedade-antes-de-reuniao Crise de ansiedade antes de reunião - Claudio Akimoto - (11) 9 8388-8689: Psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP.

Crise de ansiedade antes de reunião

Crise de ansiedade antes de reunião: a cena que começa antes da fala

Quarenta minutos antes da reunião está tudo pronto. Os números foram conferidos duas vezes, os documentos estão abertos nas abas certas, o assunto é dominado a ponto de dispensar consulta. Ainda assim, por volta dos vinte minutos, alguma coisa começa: as mãos esfriam, a boca seca, a respiração fica curta de um jeito que não corresponde a esforço nenhum. Aparece o cálculo sobre o momento de falar, se convém abrir ou deixar que outra pessoa abra, se a frase que se ensaiou há meia hora ainda cabe depois do que provavelmente será dito antes. E aparece, em alguns casos, a sensação de ouvir a própria voz de fora do corpo durante a primeira frase, como se ela chegasse com um instante de atraso.

Depois a reunião acontece e transcorre bem. A pessoa fala, a fala é aproveitada, ninguém percebe nada, e ela sai dali com um cansaço que não guarda proporção com uma hora sentada.

O quadro fica confuso justamente por isso: não houve fracasso a ser explicado. A explicação mais imediata, a de que faltava segurança sobre o assunto, não se sustenta, porque o assunto estava dominado e a pessoa sabe disso. Vale registrar que o pior momento não é o de falar, e sim o intervalo anterior, aquele em que ainda não há nada acontecendo. Isso não prova que o desempenho esteja fora de questão, e seria apressado concluir que está: a apreensão antecipatória é um componente conhecido da ansiedade de desempenho, e é perfeitamente possível que o que se antecipe seja a avaliação, o erro, o constrangimento. O que o intervalo sugere é mais estreito: que a apreensão não se reduz ao momento da execução nem ao domínio do conteúdo, e que a cena inteira já está em jogo antes de começar.

Um detalhe da cena

Numa reunião, não se espera o fim da frase para começar a interpretá-la. O tom com que se abre, a velocidade, o fato de se pedir a palavra ou de simplesmente tomá-la, tudo isso é lido enquanto se fala, e quem fala sabe que está sendo lido.

Mais do que isso: cada um chega ali com uma posição já atribuída, construída ao longo de meses ou de anos, a de quem sempre levanta a objeção, a de quem é cauteloso demais, a de quem entrou por último, a de quem se espera que concorde. A fala não inaugura essa posição. Ela é ouvida a partir dela.

É por isso que a preparação, sozinha, pode não alcançar tudo. Ela trabalha sobre o conteúdo, e há uma parte da apreensão que pode estar em outro lugar. Um indício é a frase mais ensaiada no elevador: às vezes ela não faz o argumento avançar, mas responde antecipadamente a uma objeção que ninguém fez e talvez ninguém faça. Ensaiar essa frase é já estar respondendo a alguém.

Falar é receber de volta

Lacan formula, em vários momentos de seu ensino, uma proposição sobre a fala que é útil aqui e que não exige nenhum vocabulário especial para ser entendida: quem fala recebe do outro a sua própria mensagem, e a recebe de forma invertida. Dizer alguma coisa não é depositar um conteúdo; é enviá-lo a um lugar de onde ele volta com uma determinação que não estava na intenção de quem falou.

Isso muda o desenho do problema. Se o sentido do que se diz depende do lugar de onde é escutado, então preparar melhor o enunciado não dá governo sobre o que ele vai ter sido. A pessoa pode dominar inteiramente o assunto e não dominar coisa alguma da leitura que a espera. E a apreensão dos minutos anteriores deixa de parecer desproporcional: ela pode ser lida também como antecipação dessa parte da operação, que é real e não está sob controle de ninguém.

Há uma consequência clínica disso, e ela é mais interessante do que a proposição em si. Se falar é receber de volta, vale perguntar de quem. Numa reunião com nove pessoas, o incômodo não se distribui igualmente entre elas. Quem examina isso com alguma calma pode encontrar, entre os presentes, alguém diante de quem falar é diferente, e encontrar também que essa diferença não corresponde ao poder que essa pessoa efetivamente tem sobre o assunto ou sobre a carreira de quem fala.

A questão que se abre aí não é a quem a fala se dirige. É quem já estava escutando antes que ela começasse.

A cena como material numa análise

Numa análise, além da intensidade da crise, interessa aquilo que a antecipação organiza: o que se ensaia, para quem se ensaia, o que a frase ensaiada já estava respondendo e que posição se tenta assegurar antes que a reunião comece.

Boa parte do trabalho recai sobre detalhes que passam despercebidos por serem constantes. O volume que cai no fim da frase, de modo que a última palavra chega mais fraca do que a primeira. A inflexão interrogativa em uma afirmação, que devolve ao outro a decisão sobre o que foi dito. O hábito de concluir antes de ter concluído, encurtando o próprio tempo. A ressalva que se adianta à objeção e que, ao se adiantar, a produz. Nada disso precisa ser tratado apenas como falha de técnica. Em alguns casos são modos relativamente estáveis de ocupar um lugar quando se fala, e eles têm história.

Depois da reunião

A reunião termina, mas a cena às vezes continua: a frase é refeita mentalmente, um silêncio ganha significado retroativo, uma expressão do outro passa a funcionar como veredicto. Esse tempo posterior também interessa, porque mostra que a ansiedade não se esgota no instante de exposição.

Quando as crises são intensas, recorrentes ou aparecem fora do contexto de trabalho, avaliação médica e psiquiátrica pode ser pertinente. No atendimento online, em português ou em inglês, a cena da reunião entra como material sem precisar ser reduzida a um treino de performance.

O ponto de trabalho pode mudar quando se distingue aquilo que realmente aconteceu daquilo a que a pessoa já estava respondendo antes de abrir a boca.

Quem estava escutando na antecipação pode não coincidir com ninguém sentado naquela sala.

Cláudio Akimoto é psicólogo e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP, e atende online em português e em inglês.