Blog - Cláudio Akimoto

insonia-e-trabalho Insônia e trabalho - Claudio Akimoto - (11) 9 8388-8689: Psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP.

Insônia e trabalho

Insônia e trabalho: o que não para quando o corpo para

Adormecer sem dificuldade nenhuma, de tanto cansaço, e acordar às três e quarenta com uma frase de trabalho já formada, nítida, como se alguém a tivesse dito em voz alta dentro do quarto. Ficar quarenta minutos no escuro organizando a resposta a uma mensagem que só será enviada às nove. Levantar, beber água, decidir não olhar o celular, olhar o celular. Voltar a dormir perto das cinco e meia, quando falta pouco para o despertador, e começar o dia com a impressão de já ter trabalhado uma vez.

Há uma forma de insônia ligada ao trabalho em que a dificuldade não está em adormecer. O sono chega, e chega rápido. O que não se sustenta é a noite inteira. Não é a única forma, e vale dizer: insônia ligada a estresse pode aparecer como dificuldade de iniciar o sono, como despertares ao longo da noite ou como despertar precoce, e o mesmo quadro pode mudar de feição ao longo dos anos. O que este texto trata é o caso em que o sono não falta e mesmo assim se interrompe com pontualidade. A pergunta que ele abre é o que religa a cabeça três ou quatro horas depois.

O que acorda no meio da noite

A descrição não é de preocupação difusa. É de nitidez. Não se acorda angustiado com o trabalho em geral. Acorda-se com um item, e o item é bem delimitado: a frase mal colocada na reunião da tarde, o número que não fechou, a resposta que se deu rápido demais e que agora se relê mentalmente, palavra por palavra. Quem passa por isso conhece a diferença entre a preocupação, que é vaga e cansa, e essa outra coisa, que é precisa e mantém acordado.

O detalhe que passa despercebido é que quase nada do que acorda alguém às três da manhã pode ser resolvido às três da manhã. Não há a quem responder, não há o que enviar, não há a quem perguntar. O assunto volta justamente no horário em que ele não pode ser encerrado, e volta com a exigência intacta. Durante o dia, cada um desses itens tinha destino: alguém a quem se dirigir, uma entrega que o concluía, uma resposta que dizia que estava bom. À noite, a mesma exigência continua funcionando sem interlocutor.

Há aí uma inversão que importa. A insônia é lida como sono que falta. Nesses casos, ela se descreve melhor como trabalho que continua, num tempo em que não há como trabalhar. O cansaço que o descanso não repõe e a noite interrompida podem aparecer juntos, e por uma razão próxima: nem o sono nem as férias suspendem a posição em que alguém se mantém.

Dormir é retirar o investimento

Freud, ao construir A interpretação dos sonhos, parte de uma condição do sono que é fácil de passar por óbvia e não é. Dormir supõe um desligamento: a retirada do interesse do mundo externo, a suspensão temporária do laço com aquilo que exige resposta. É por isso que ele pode dizer que existe um desejo de dormir, isto é, que o sono não é apenas ausência de vigília, é uma operação que o psiquismo executa e que precisa ser sustentada durante a noite inteira. O sonho, na leitura que ele constrói, trabalha a favor dessa operação: ele elabora o que insiste, de modo que a insistência não obrigue a acordar.

O que essa proposição permite pensar aqui é direto. Se dormir é retirar o investimento, então acordar às três da manhã com um item de trabalho formado pode ser lido como o índice de algo cujo investimento permanece ativo. Não se trata de excesso de estímulo, e sim de uma parte do laço que permanece ativa quando todas as outras se desligaram. A pessoa desligou do dia, desligou dos ruídos, desligou até do próprio corpo. Aquilo não desligou.

A pergunta que se abre é sobre a natureza desse laço. Um item de trabalho não tem, por si, força para impedir o desligamento; itens de trabalho são esquecidos aos milhares. O que retorna com essa insistência pode ser o que ficou dirigido a alguém e não chegou. A frase que não se conseguiu dizer na reunião. A justificativa que não coube. O trabalho que se fez e sobre o qual ninguém comentou nada, nem bem nem mal.

Aqui é preciso não generalizar. Isso não diz que toda insônia tem essa forma, nem que o item que desperta guarda um sentido a ser decifrado. Diz apenas que, nos casos em que o sono chega e não se sustenta, vale investigar se aquilo que insiste conserva a forma de um endereçamento que não encontrou destino, e por que ele retorna no horário em que não há mais ninguém.

Insônia persistente merece avaliação médica, porque pode ter causas e comorbidades que não são psiquiátricas, como apneia do sono e alterações endócrinas. Para insônia crônica em adultos, a terapia cognitivo-comportamental para insônia é recomendada nas diretrizes clínicas como tratamento de primeira linha. Essa informação clínica não substitui a pergunta deste texto sobre o conteúdo e o endereçamento do que retorna de madrugada.

Quando o item pode ser dito

Numa análise, o item que volta de madrugada pode ser dito sem precisar ser resolvido. Isso parece pouco e não é, porque é justamente o que falta às três da manhã: um lugar para onde aquilo possa ir.

O trabalho não consiste em interpretar o conteúdo do que desperta, como se cada despertar guardasse um sentido a ser decifrado. Consiste em deixar que aquilo se fale, e em prestar atenção no que vem junto sem estar previsto. As mesmas expressões que retornam sempre que se conta a cena da reunião. O nome diante do qual a voz muda de andamento. O ponto em que a fala acelera e o ponto em que ela para. Boa parte do que se elabora vem daí, do que escapa a quem fala e só se torna audível porque alguém estava escutando.

Há aqui uma diferença que pesa para quem passa o dia falando. No expediente, ser ouvido é o regime corrente: cada frase é registrada, medida pelo efeito, respondida rápido. Escutar é outra operação, e recai menos sobre o que se diz do que sobre o modo. É essa diferença que abre a possibilidade de que alguma coisa se conclua em outro lugar que não a entrega seguinte.

Atendimento e cuidado com a insônia

O atendimento é online, em português ou em inglês. As sessões duram em torno de quarenta a cinquenta minutos, com frequência definida caso a caso.

Insônia persistente ou intensa merece acompanhamento médico, clínico ou de medicina do sono, e avaliação psiquiátrica quando indicada. Esse cuidado pode ocorrer em paralelo à análise. Quando o objetivo específico é tratar insônia, a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é uma referência clínica importante e não precisa ser colocada em oposição ao trabalho analítico.

O que acorda junto

Nem todo despertar precisa carregar um sentido oculto. Mas, quando certos assuntos, frases ou interlocutores retornam com uma regularidade que não acompanha a urgência objetiva das tarefas, essa repetição pode ser tomada como material.

Dormir melhor pode ser uma consequência importante; não é preciso transformar a noite em nova planilha de desempenho. A questão que o texto deixa aberta é mais estreita: por que aquilo precisava continuar endereçado justamente quando ninguém estava disponível para responder.

Cláudio Akimoto é psicólogo e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP, e atende online em português e em inglês.