Blog - Cláudio Akimoto

ja-fiz-terapia-e-nao-resolveu Já fiz terapia e não resolveu - Claudio Akimoto - (11) 9 8388-8689: Psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP.

Já fiz terapia e não resolveu

Já fiz terapia e não resolveu: o que se pede a um tratamento

A frase pode aparecer cedo, já na primeira conversa, e vem no tom de quem gastou tempo e dinheiro com o assunto: já fiz terapia e não resolveu. Às vezes aparece acompanhada de um cálculo. Dois anos. Três profissionais. Uma experiência abandonada no meio e outra levada até o fim sem convicção. Pode vir também a ressalva de que quem atendia era competente e que as conversas eram até agradáveis, o que torna a queixa mais difícil de formular. Não houve falha evidente. Houve tempo passado e alguma coisa que não se moveu.

A frase é uma avaliação de resultado, e a avaliação pode estar inteiramente correta. Mas ela informa mais do que parece, porque para dizer que algo não resolveu é preciso ter tido, mesmo sem formular, uma ideia do que estaria resolvido.

O que “não resolveu” pode querer dizer

A mesma frase pode recobrir situações bastante diferentes. Três delas ajudam a mostrar por que “não resolveu” ainda não diz, sozinho, o que aconteceu.

Na primeira, nada aconteceu. As sessões viraram relatório da semana. Contava-se o que tinha ocorrido desde a última vez, ouvia-se um comentário sensato, saía-se com a sensação de ter conversado bem, e na semana seguinte recomeçava-se do mesmo ponto. Não havia atrito em lugar nenhum. Às vezes isso é descrito como algo agradável demais, com certo constrangimento, porque não parece uma crítica legítima.

Na segunda, alguma coisa aconteceu e se desfez. Houve um período de alívio real, e ele durou enquanto durou. A crise passou, o processo perdeu urgência, as faltas começaram, e o encerramento veio por atrito de agenda e não por conclusão. Meses depois, a mesma coisa retorna com outra roupa, e a leitura imediata é a de que o tratamento não pegou.

Na terceira, funcionou, e é a que menos se reconhece. A vida ficou mais organizada, o sintoma mais visível diminuiu, e permaneceu intacta a questão que levou a pessoa até ali, ainda que ela nunca tenha sido dita em voz alta. Alguém que procurou ajuda por um cansaço que não cedia ao descanso passa a dormir melhor e continua sem saber por que só se sente vivo quando está sob pressão. Nesse caso, dizer que não resolveu é impreciso e ao mesmo tempo exato: resolveu-se o que foi apresentado, e o que foi apresentado não era o essencial.

O que se espera de um tratamento

Freud voltou a essa questão em 1937, perto do fim da vida, num texto em que examina se uma análise tem término e se um tratamento pode deixar alguém a salvo de conflitos futuros. A resposta que ele constrói é sóbria e vale ser dita sem suavização: não se imuniza ninguém contra conflitos que ainda não se tornaram ativos. O que um tratamento pode alcançar diz respeito ao que está em jogo enquanto ele dura, e não a tudo o que uma vida ainda vai produzir. No mesmo texto, Freud inclui a análise entre as profissões que chama de impossíveis, ao lado de governar e educar, e o faz sem lamento, como quem descreve uma condição de trabalho.

Quarenta anos antes, ao encerrar os estudos que estavam na origem do método, ele já havia formulado a expectativa de modo igualmente contido: o que se podia oferecer era a transformação de um sofrimento em algo mais próximo do infortúnio comum, com o qual se pode viver. É uma promessa pequena, e chama atenção que tenha sido feita justamente no momento em que teria sido conveniente prometer mais.

Isso não serve para rebaixar expectativa, e seria um mau uso de Freud transformá-lo em argumento pela paciência. Serve para localizar de onde vem o verbo. Resolver pertence a um registro em que problemas têm solução e em que um estado pode ser declarado atingido, verificado, encerrado. É um verbo excelente, e é o verbo com que se organiza a maior parte de uma vida produtiva. Quando ele é aplicado a um tratamento, o tratamento passa a ser mais uma coisa a ser entregue, e quem o conduz passa a ser mais alguém diante de quem se está prestando contas. Vale perguntar se a exigência que se examinaria ali não terminou governando também o exame.

O pedido como material

O que se faz com essa frase, numa análise, é não passar por cima dela. Ela não é obstáculo a ser contornado com a promessa de que desta vez será diferente, e essa promessa, aliás, não teria como ser sustentada.

O que se examina é o pedido. O que foi pedido ao tratamento anterior, com que palavras, e sobretudo a quem. Porque um pedido se dirige a alguém, e o modo como alguém pede tem história: há quem só consiga pedir depois de já ter tentado tudo sozinho, há quem peça de forma a garantir que o pedido não seja atendido, e há quem organize o pedido de maneira tão eficiente que não sobra nada a ser feito pelo outro. Nada disso é falha de caráter. É material, e é o primeiro material disponível quando alguém chega dizendo que já tentou.

O que se trabalhou antes tampouco é descartado. Uma segunda tentativa não recomeça do zero, e a experiência anterior pode ter deixado saber alguma coisa, inclusive sobre o ponto em que aquilo parou. A diferença entre os enquadres possíveis importa menos, aqui, do que a pergunta sobre o que se esperava de qualquer um deles.

Há ainda um deslocamento de critério, e ele precisa ser dito com precisão. Uma análise pode produzir efeitos rápidos, mas não pode prometer um resultado previamente definido dentro de um prazo dado nem organizar todo o tratamento em torno dessa medida. Parte do que se torna trabalhável não estava no que se sabia formular no começo. O que ela oferece é um lugar em que interessa também o que não estava no plano do que se ia dizer: a expressão que retorna sem que se perceba, a frase que pertence a outra pessoa e continua sendo dita na primeira pessoa, o assunto diante do qual a voz muda.

Começar de novo não é voltar ao zero

Quando já houve tratamento anterior, a conversa inicial inclui o que aconteceu nele, o que ficou de fora e como terminou. O atendimento é online, em português ou em inglês, com sessões em torno de quarenta a cinquenta minutos e frequência definida caso a caso.

A experiência anterior não precisa ser invalidada para que outra tentativa faça sentido. Às vezes ela deixou efeitos que só se tornam legíveis depois; em outras, deixou precisamente um ponto que nunca encontrou lugar. Também é possível concluir que não se quer iniciar outro tratamento.

O que significaria resolver

A frase “não resolveu” fica mais precisa quando se consegue dizer o que teria contado como resolução. O desaparecimento de um sintoma? Uma decisão? Deixar de repetir determinada cena? Conseguir sustentar algo que antes se interrompia?

Essa definição não é um contrato de resultado. É material clínico. O que alguém exige de um tratamento pode dizer tanto sobre o sofrimento que o trouxe quanto sobre a medida pela qual julga a si mesmo.

Cláudio Akimoto é psicólogo e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP, e atende online em português e em inglês.