Blog - Cláudio Akimoto

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Culpa por morar fora do Brasil

Culpa por morar fora do Brasil: quando a carreira precisa justificar a distância

Numa ligação de domingo, a mãe conta que precisou ir a uma consulta e que um vizinho a acompanhou. Não pede que o filho volte, não reclama de ter ido sozinha e diz que o exame correu bem. Depois da chamada, ele confere os próximos voos, embora saiba que não haverá outra consulta naquela semana. À noite, retoma um projeto que poderia esperar. A justificativa que lhe ocorre não é a de ganhar mais dinheiro. É a de fazer valer a pena estar longe.

Há uma obrigação concreta nessa cena. A notícia de uma consulta pode exigir informação, companhia, dinheiro ou uma reorganização de cuidados. A distância dificulta algumas dessas respostas e torna outras impossíveis. A culpa por morar fora do Brasil, porém, não se deixa medir apenas pelo que faltou fazer naquela tarde. Ela pode persistir depois de resolvida a providência, depois de combinada uma visita e mesmo quando quem ficou afirma, sem ironia, que a decisão de partir foi boa.

O problema não se reduz a saudade, embora a saudade possa estar presente. Tampouco é prova de que a mudança foi um erro. O que pede atenção é a conta que se forma entre duas coisas de naturezas diferentes: a vida construída fora e a presença que não se pôde oferecer aqui. Quando um avanço na carreira passa a funcionar como resposta à segunda, cada conquista recebe uma tarefa que nenhum resultado profissional pode cumprir sozinho.

O que a ligação efetivamente pediu

Antes de interpretar a reação à chamada, convém reconstruir o que aconteceu. A consulta já ocorreu? Haverá outros exames? Quem pode acompanhar a próxima? A pessoa que telefonou queria ajuda, quis apenas contar a notícia ou ainda não sabe o que precisará? Essas perguntas não são uma etapa menor que viria antes da questão subjetiva. Elas impedem que uma necessidade real seja dissolvida numa leitura sobre culpa.

Também impedem a conclusão inversa. Resolver o transporte e pagar uma passagem não responde necessariamente ao que se sentiu ao ouvir a frase sobre o vizinho. Alguém pode providenciar tudo o que está ao seu alcance e continuar voltando à imagem de uma sala de espera onde não esteve. A precisão prática importa, justamente para que o que sobra não seja confundido com a tarefa ainda pendente.

As condições da mudança entram nessa conta. Há quem disponha de recursos para viajar, de licença no trabalho e de uma rede de cuidados no Brasil. Há quem não tenha nenhum desses recursos. Custo, documentação, vínculo de emprego e estado de saúde de quem ficou alteram as possibilidades de presença; não são detalhes exteriores que a análise possa dispensar. Uma ausência inevitável em certo momento não se torna indiferente por ser inevitável, mas também não deve ser descrita como escolha livre quando não foi.

O trabalho recebe outra incumbência

Na segunda-feira seguinte, um retorno positivo sobre o projeto traz satisfação. Pouco depois aparece a frase: ao menos a mudança está compensando. Ela pode ser dita com gratidão e com alívio. Vale escutar, contudo, o que a palavra compensando colocou em relação. O resultado deixou de dizer apenas respeito ao trabalho. Passou a oferecer uma resposta à consulta, à distância e aos encontros perdidos.

Mudar de país por trabalho pode começar com razões boas que permanecem boas. A mudança reorganiza laços cotidianos enquanto o emprego oferece uma continuidade. Nesta cena, já existe uma vida em andamento no lugar novo. O ponto é outra função atribuída ao resultado: demonstrar a quem ficou que o preço da mudança não foi pago em vão.

Talvez essa demonstração não tenha sido pedida. Talvez a família pergunte com insistência se a promoção veio e se o salário melhorou, fazendo da cobrança uma parte efetiva da relação. As duas situações não devem ser tratadas como equivalentes. Se existe uma exigência formulada por alguém, ela pode ser discutida com essa pessoa. Se a frase aparece sem destinatário claro, torna-se importante perguntar a quem a prova seria apresentada e que resposta encerraria a conta.

Essa pergunta distingue a cena da conquista que chega sem trazer a satisfação esperada. Aqui pode haver alegria pela conquista. O que não se obtém é a absolvição de ter faltado a uma mesa, a uma consulta ou a uma data. O resultado é real, mas lhe foi atribuído um trabalho adicional. Uma promoção pode melhorar as condições de cuidado à distância; não faz alguém ter estado onde não esteve.

Há uma consequência discreta para a ambição. Um projeto desejado começa a ser avaliado também por sua capacidade de justificar a partida. A escolha entre aceitar ou recusar uma oportunidade deixa de envolver somente interesse, dinheiro e condições de vida; passa a carregar a pergunta sobre qual delas oferece uma prova melhor. Isso não invalida a decisão profissional. Mostra apenas como uma dívida pouco formulada pode participar dela sem aparecer no cálculo declarado.

Um pedido e aquilo que ele não contém

Em A direção do tratamento e os princípios de seu poder, Lacan distingue a necessidade expressa num pedido de algo que não se esgota na satisfação dessa necessidade. Um pedido dirigido a outra pessoa pode solicitar um objeto ou uma providência e, ao mesmo tempo, envolver sua presença e o lugar que se ocupa para ela. Por isso, atender ao conteúdo explícito não resolve automaticamente tudo o que se passou na relação. Essa distinção não autoriza ignorar a necessidade: se alguém precisa de acompanhante, organizar o acompanhamento continua sendo uma resposta necessária.

A aproximação com a ligação de domingo é uma hipótese clínica, não uma explicação geral da vida fora do país. A consulta talvez tenha exigido somente uma providência, e o desconforto talvez diga respeito a não poder executá-la. Em outro caso, a frase sobre o vizinho pode tocar uma pergunta mais antiga: que lugar cabe a alguém numa relação em que a presença mudou de forma? Nenhum conceito decide antecipadamente o que a mãe quis dizer ou o que o filho ouviu.

Há diferença também entre o que se recebeu e o que se acrescentou ao relato. A mãe disse que o vizinho a acompanhou. Foi ao repetir essa frase que surgiu a impressão de ter sido substituído? Ela agradeceu ao vizinho e isso foi escutado como uma comparação? Ou o incômodo começou antes da ligação, quando já se temia receber uma notícia parecida? A ordem dos acontecimentos, as palavras exatas e a história daquela relação importam mais do que uma categoria pronta para o sentimento.

O pedido de presença não se mede pelos quilômetros de maneira simples. Uma visita longa pode ocorrer sem que se consiga conversar. Uma chamada breve pode sustentar uma relação importante, sem por isso substituir todas as formas de cuidado que a proximidade permitiria. Interessa examinar o que cada contato torna possível dizer, inclusive o que fica de fora por receio de preocupar quem está do outro lado.

Quando produzir parece pagar

Na semana seguinte, trabalhar mais pode oferecer uma resposta temporária. A atividade rende, o dinheiro pode ampliar opções de viagem e uma entrega bem feita confirma algo que se escolheu preservar. Essa utilidade precisa ser reconhecida. A questão se torna outra quando a jornada passa a servir de recibo moral: trabalhei bastante, então tive razão em estar aqui. O efeito pode durar só até a próxima notícia de casa, que reabre uma conta de natureza diferente.

A culpa por não estar produzindo também pode aparecer nas horas livres, mas sua pergunta não depende de uma travessia. Aqui, uma tarde sem trabalho pode trazer a lembrança de pessoas e situações das quais se está fisicamente distante. Produzir talvez alivie por oferecer meios concretos de ajuda; talvez alivie por suspender essa lembrança; talvez não produza alívio algum. É preciso separar essas possibilidades antes de dizer que a culpa funciona de uma só maneira.

Pode haver ainda uma dívida explícita. Parte da renda é enviada regularmente para manter a casa de alguém, e perder o trabalho teria consequências reais. Nesse caso, recomendar que se reduza a exigência sem considerar o compromisso financeiro seria ignorar o que sustenta outras vidas. A investigação não precisa disputar lugar com a organização material do cuidado. Ela pode começar pela forma como esse compromisso é contado, por aquilo que foi combinado e pelo que se acrescentou a ele sem ter sido pedido.

Também não há obrigação clínica de dissolver o pesar pela distância. Alguns dias importantes serão perdidos e poderão ser lamentados. O trabalho de escuta não transforma essa perda numa conta positiva, em que a carreira venceria por produzir benefícios suficientes. Pode, em certos casos, permitir que a tristeza pelo que não se viveu deixe de ser tratada como sentença sobre o valor inteiro da mudança. Essa possibilidade depende da história de cada relação, não de uma fórmula sobre emigrar.

No atendimento online, em português ou inglês, a conversa pode partir de uma ligação específica, da frase que permaneceu depois dela e das providências que foram tomadas. As condições e a frequência do trabalho são definidas caso a caso. A análise não determina se alguém deve permanecer fora, voltar ou viajar mais; acompanha o que essas alternativas passaram a responder além dos problemas práticos que cada uma envolve.

O que uma conquista não quita

A consulta de domingo terminou, o projeto avançou e a distância continuou tendo efeitos distintos em cada relação. Se o trabalho foi colocado na posição de justificar aquilo que a ausência custou, a quem seria apresentada uma prova suficiente, e o que ficaria sem resposta mesmo que ela fosse aceita?

Uma conversa inicial serve para situar essa questão, distinguir necessidades atuais das cobranças que foram se formando e avaliar se a análise é um espaço pertinente para trabalhá-las. Nela se combinam as condições de continuidade.

Cláudio Kazuo Akimoto Júnior, psicólogo (CRP 06/125905) e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP.