Blog - Cláudio Akimoto

comparacao-com-colegas Comparação com colegas - Claudio Akimoto - Psicólogo Clínico e Psicanalista Online: (11) 9 8388-8689, entre em contato!

Comparação com colegas

Comparação com colegas: quando o percurso do outro vira uma medida do seu

Antes da notícia, o trabalho parecia caminhar. Havia uma dificuldade a resolver, mas também um projeto interessante, satisfação com o que tinha sido feito e planos para os meses seguintes. Durante uma conversa, alguém comenta que uma pessoa conhecida recebeu uma promoção. A informação é breve. Ao longo da tarde, porém, a remuneração começa a incomodar de outro modo e os planos ganham a aparência de modéstia excessiva.

A comparação com colegas pode se instalar nessa passagem. O contrato de quem recebeu a notícia continua igual, mas a leitura da própria situação se alterou. Talvez a promoção revele diferenças de oportunidade que precisavam ser conhecidas. Talvez o nome de quem foi promovido conte de uma maneira que o cargo, sozinho, não explica. Conservar esses elementos separados permite acompanhar como uma informação sobre outro percurso começou a falar do próprio.

Antes de saber

A satisfação anterior à notícia merece ser escutada sem ser declarada ingenuidade. Alguém pode gostar do projeto em que está envolvido e desejar condições melhores. Pode reconhecer os limites da situação sem que eles organizem a experiência inteira. Há diferença entre considerar a remuneração insuficiente e sentir que essa insuficiência torna irrelevante aquilo que se construiu.

Quando a informação chega, a pessoa pode rever esse equilíbrio. Conclui que estava acomodada, que se contentava com pouco ou que não enxergava o que tinha diante de si. Uma notícia pode de fato ampliar as possibilidades percebidas. O que pede exame é a operação pela qual uma diferença particular passa a explicar todas as escolhas anteriores, inclusive aquelas que haviam sido feitas por razões ainda reconhecidas como importantes.

Uma mudança escolhida por permitir mais tempo em casa pode ser recontada como falta de ambição. Um projeto que exigia preparação perde valor diante de outro que trouxe retorno mais rápido. Para que a comparação produza uma classificação, as trajetórias precisam ser traduzidas numa escala comum. Vale perguntar o que foi conservado nessa tradução e o que ficou fora dela.

Há pessoas que, ao comparar, consideram condições que antes ignoravam. A informação permite negociar ou reconhecer uma preferência própria. Em outros casos, o critério se estreita: a única escolha válida parece ser aquela cujo resultado já apareceu na trajetória do colega. A diferença se torna menos uma possibilidade de aprender sobre o campo do que uma obrigação de apresentar o mesmo percurso.

No instante da notícia

O nome pode fazer tanta diferença quanto a promoção. A trajetória de alguém distante informa algo sobre o trabalho; a de uma pessoa com quem se começou junto pode ser recebida como informação sobre quem permaneceu. Essa equivalência merece ser reconstruída. Ter feito a mesma formação ou ocupado posições próximas não torna iguais os recursos e as circunstâncias de duas vidas.

Interessa também quem contou. Ouvir o anúncio numa conversa casual pode ser diferente de ouvi-lo de alguém cujo reconhecimento importa. A frase sobre o colega adquire, para quem escuta, a forma de uma pergunta: e você? Essa pergunta pode ter sido insinuada. Pode também ter sido antecipada sem que o interlocutor a fizesse. Distinguir essas possibilidades evita presumir tanto uma cobrança real quanto uma interpretação inteiramente interna.

Em certos relatos, há outra passagem: a pessoa começa observando a carreira alheia e termina sentindo que a sua própria posição ficou exposta. O colega pode nem saber da comparação. Ainda assim, a notícia fornece uma cena na qual quem a recebe se localiza como alguém cujo percurso precisaria ser explicado. A dificuldade deixa de se resumir à diferença entre dois resultados.

No Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan distingue o olho e o olhar. A visão organizada a partir do ponto de um observador não esgota sua relação com o campo visível: o sujeito também está inscrito nesse campo, sem dominar o lugar a partir do qual é olhado. O olhar, nesse desenvolvimento, é distinto dos olhos de outra pessoa e de uma opinião que ela formularia. A questão alcança a posição de quem vê, não apenas as propriedades do objeto observado.

O conceito impede tratar como equivalentes olhar uma imagem e governar a própria inscrição nela. A aproximação com a comparação entre colegas é uma hipótese clínica, não uma explicação lacaniana de promoções: interessa investigar a passagem de observar uma trajetória a encontrar nela uma cena em que a própria posição parece exposta. O colega não é identificado ao olhar; tampouco se presume que esteja julgando quem se compara.

Uma tela pode oferecer ocasião para essa experiência, assim como uma conversa à mesa. O suporte ajuda a compreender as circunstâncias, mas não determina por que certa notícia teve esse efeito. Entre várias informações recebidas no mesmo dia, o nome que ficou pode remeter a uma relação antiga, a uma rivalidade atual ou à importância de uma testemunha diante de quem se queria aparecer de outro modo.

Ao voltar ao próprio trabalho

De volta à mesa, a pessoa abre aquilo que havia considerado bom e encontra razões para diminuir sua importância. Pode continuar reconhecendo a qualidade e, ainda assim, achar o resultado pequeno diante da promoção anunciada. Essa passagem se distingue do medo de ser descoberto como fraude, em que o crédito recebido encontra dificuldade de ser apropriado. Aqui, a competência pode ser admitida; o que mudou foi o peso que ela tem na comparação.

O incômodo também pode nascer de uma vantagem que a pessoa havia dito não desejar. Alguém escolheu deixar certa responsabilidade para preservar outra parte da vida. Ao saber que o colega a assumiu, sente que perdeu uma posição. Examinar essa reação não exige decidir que a escolha anterior foi falsa. Ela pode envolver uma renúncia cujo custo só se tornou mais visível quando outro passou a ocupar aquele lugar.

É diferente da ausência de satisfação após uma conquista própria. Na cena da notícia, a satisfação pode estar presente e continuar reconhecida. A relação com ela se modifica quando aparece o resultado do colega. Uma meta maior talvez seja pertinente, mas também pode deixar intacta a possibilidade de que a medida volte a mudar no próximo anúncio.

Essa investigação precisa conservar as desigualdades reais. Descobrir que funções equivalentes recebem remuneração diferente ou que os critérios de progressão foram aplicados de modo desigual exige considerar essas condições. A análise não deveria traduzir uma diferença de tratamento em falha pessoal de autoestima. Obter informações e discutir critérios são respostas possíveis ao problema concreto que passou a ser conhecido.

Outra pergunta aparece quando a diferença é corrigida e a comparação passa a se apoiar num novo item. O colega ganha outra vantagem, ou alguém assume seu lugar como referência. Isso pode sugerir que existe uma questão para além do benefício específico, mas a hipótese precisa acompanhar o que aconteceu. Antecipá-la apagaria justamente a diferença entre uma injustiça sem resposta e uma medida que continua se refazendo.

Uma notícia que possa ser contada

Admitir o incômodo pode parecer incompatível com a amizade ou a admiração. A pessoa quer celebrar a conquista e percebe um ressentimento que preferia não incluir na conversa. Numa análise, esses afetos podem ser ditos sem que seja exigida uma reação mais generosa. Importa acompanhar a relação em que coexistem, e não escolher qual deles representaria a verdade sobre quem fala.

Retomar os três momentos pode tornar mais precisa essa fala. O que se valorizava antes da notícia, quais palavras foram recebidas e que afirmações começaram a ser feitas depois? A sequência pode incluir um desejo ainda pouco formulado. Pode também devolver lugar a uma escolha que havia sido desqualificada. As duas direções permanecem possíveis sem transformar parar de comparar em resultado obrigatório.

As sessões acontecem online, em português ou inglês. A frequência e as demais condições são definidas a partir da demanda, que pode começar nessa comparação sem restringir a conversa ao ambiente em que apareceu.

O que se ouviu sobre si

Antes da notícia, o projeto tinha valor. Depois dela, as mesmas escolhas passaram a pedir uma explicação. Entre esses momentos houve uma informação sobre o colega, recebida numa relação particular. Quando alguém diz que aquela promoção demonstrou algo sobre si, que relação tornou possível receber como demonstração uma notícia que dizia respeito a outra pessoa?

Uma conversa inicial permite apresentar esse incômodo, situar suas circunstâncias e examinar o que se procura num tratamento. As condições do trabalho são definidas a partir desse primeiro encontro.

Cláudio Kazuo Akimoto Júnior, psicólogo (CRP 06/125905) e psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP.