Ansiedade no trabalho
Ansiedade no trabalho: quando a exigência para de funcionar
Há uma forma de ansiedade no trabalho que não aparece como crise. Ela se organiza cedo, antes do primeiro compromisso do dia, como uma aceleração que antecede qualquer motivo concreto.
A pessoa acorda vinte minutos antes do despertador com a lista já formada, confere o celular ainda deitada, e às sete da manhã está atrasada em relação a um cronograma que ninguém estabeleceu.
Quem vive assim costuma ter uma relação eficiente com o próprio sintoma. A aceleração produz resultado: entrega antes do prazo, antecipação do problema que os outros ainda não viram, resposta à mensagem no minuto em que ela chega.
A ansiedade, nesses casos, não interrompe o trabalho. Ela o sustenta. É por isso que a queixa demora tanto a se formular. Durante anos, aquilo que incomoda é exatamente o que funciona.
O momento em que a queixa se forma
A procura raramente vem de um fracasso. Vem da percepção de que o arranjo continua funcionando a um custo que subiu.
O sono costuma ser o primeiro lugar onde isso aparece. Não a insônia de quem não consegue dormir, mas o despertar de madrugada com um assunto de trabalho já formado, nítido, como se a cabeça tivesse continuado a reunião por conta própria.
Depois vem a irritação em casa, desproporcional ao que a motivou, e que só se manifesta ali, nunca no escritório, onde o controle é integral.
Vem a impossibilidade de estar de férias: os três primeiros dias de desconforto, o quarto dia em que se inventa um projeto para o descanso, a checagem do e-mail no aeroporto de volta com algo próximo do alívio.
Em outras situações, o que produz a procura é o oposto de uma piora. É a conquista. A promoção sai, a meta é batida, o negócio se fecha, e o alívio esperado não vem, ou dura uma tarde.
No lugar dele instala-se um vazio que não pode ser dito a ninguém, porque a circunstância é de comemoração e não há como explicar a um colega ou a alguém de casa que aquilo pelo qual se trabalhou dez anos, tendo chegado, não mudou nada. Esse silêncio costuma pesar mais que o cansaço.
Freud descreveu essa figura num texto de 1916, entre outros tipos de caráter encontrados no trabalho analítico: pessoas que adoecem justamente no momento em que um desejo longamente sustentado se realiza.
A observação é contraintuitiva e permanece útil, porque desloca o problema. Se a realização pode adoecer, então o que sustentava a busca não era exatamente aquilo que se buscava.
O que costuma ser oferecido, e o que fica de fora
A oferta disponível para a ansiedade no trabalho é ampla e, em boa medida, competente. Organização do tempo e priorização. Exercícios de respiração e protocolos de higiene do sono.
Trabalhos breves e focados sobre pensamentos que se repetem. Avaliação psiquiátrica e medicação, quando a intensidade do quadro pede. Programas de bem-estar. Afastamento, quando o esgotamento já se instalou. Cada uma dessas vias tem pertinência real, e algumas são indispensáveis em situações agudas.
O que elas têm em comum é um pressuposto: a ansiedade é excesso, algo que está a mais e precisa ser reduzido. A exigência fica situada do lado de fora, na carga, na cultura da empresa, em quem chefia, e a resposta ansiosa aparece como desproporcional a ela.
Esse pressuposto se sustenta em muitos casos, e é o que explica os bons resultados. Em outros, ele explica por que o alívio dura pouco. Reduz-se a carga e a exigência se reorganiza em outro lugar.
A pessoa negocia uma jornada menor e ocupa o tempo liberado com um segundo projeto de padrão de cobrança idêntico. Sai da empresa que a esgotava e reencontra, na seguinte, a mesma posição. Aprende a respirar antes da reunião e continua relendo três vezes um e-mail já enviado.
A pergunta que fica de fora é a que interessa aqui: a que essa exigência serve.
A severidade que não vem de fora
Em muitos casos, o rendimento não se sustenta pelo interesse no trabalho, nem pelo dinheiro, nem pela ambição, ainda que os três estejam presentes e sejam verdadeiros. Ele se sustenta por uma contabilidade que raramente se formula em voz alta: trabalhar, a partir de certo ponto, deixa de ser produzir e passa a ser pagar.
Pagar o quê, e a quem, varia. Pode ser uma dívida com quem trabalhou muito para que se chegasse ali, e diante de quem qualquer descanso parece indecência.
Pode ser a manutenção de um lugar conquistado numa família onde o valor de cada um foi medido por rendimento desde cedo. Pode ser a suspeita, nunca inteiramente formulada, de que o reconhecimento recebido se apoia em algo instável, e de que basta uma entrega abaixo do padrão para que se veja o que se é de fato.
A frase que aparece com frequência tem essa forma: se eu parar, alguma coisa acontece. Sem que se saiba dizer o quê. E costuma vir acompanhada de um dado clínico bastante regular: o único descanso autorizado é a doença.
Não como imagem. Pessoas que não conseguem tirar uma tarde de folga passam uma semana de cama sem culpa, porque a febre é a única justificativa que a instância interna aceita.
É aqui que a observação de Freud em O mal-estar na civilização se torna concreta. A instância que cobra, o supereu, não se apazigua com o cumprimento. Freud nota que sua severidade não corresponde à dureza de quem educou, e que cada renúncia, em vez de saldar a conta, aumenta a exigência seguinte. Quanto mais alguém se comporta como deve, mais rigoroso fica o tribunal.
Isso separa essa cobrança de qualquer norma externa. Uma norma se cumpre e se encerra: entrega-se o relatório, atende-se ao pedido, e a obrigação termina ali.
A exigência de que se trata aqui funciona de outro modo, porque o cumprimento a alimenta. Daí a experiência, tão comum e tão difícil de explicar para quem está de fora, de que nenhuma entrega conclui coisa alguma, e de que o intervalo entre a última cobrança e a próxima vem encurtando com o tempo.
Nessa economia, a ansiedade tem função. Ela mantém o pagamento em dia. Reduzir a intensidade sem tocar naquilo que ela paga tende a produzir o efeito conhecido: o sintoma volta, ou troca de forma.
O que a escuta psicanalítica faz de diferente
O trabalho analítico parte da hipótese de que a ansiedade ocupa um lugar na economia singular de cada pessoa, e de que esse lugar pode ser investigado. A pergunta muda de eixo: em vez de como diminuir a intensidade, o que esse funcionamento sustenta, desde quando, e a que preço.
Isso não implica abrir mão da exigência, e vale dizer com clareza, porque costuma ser o receio de quem procura análise nessa condição. O trabalho não consiste em produzir alguém mais conformado, com ambição menor e expectativas rebaixadas.
Para muitas pessoas, a exigência é o que há de mais próprio, e foi dela que veio tudo o que se construiu. O que se examina é o que está amarrado a ela: se o que move é desejo ou é dívida, e se essa diferença, que de dentro parece indistinguível, pode ser feita.
Uma distinção dessas não se produz por decisão. Ninguém deixa de se cobrar por ter compreendido que se cobra demais, do mesmo modo que ninguém para de sentir culpa por um raciocínio bem construído a respeito dela.
Ela se produz no tempo da fala, e sobretudo naquilo que retorna dentro dela: as expressões que se repetem sem que quem fala perceba, as frases que pertencem a outra pessoa e continuam sendo ditas na primeira pessoa, os assuntos diante dos quais a voz muda de andamento, acelera, ou emudece.
Há aí uma diferença que importa a quem passa o dia falando. Em reuniões, apresentações e conversas de trabalho, alguém é ouvido: o que diz é registrado, avaliado, respondido, e a resposta costuma chegar rápido. Escutar é outra operação.
Ela recai menos sobre o conteúdo do que sobre o modo, e trabalha justamente com o que não estava previsto no que se ia dizer. Boa parte do que se elabora numa análise vem daí, do que escapa a quem fala e só se torna audível porque alguém estava escutando.
Como funciona o atendimento
O trabalho é conduzido integralmente online, em português ou em inglês, o que torna possível sustentar a continuidade em rotinas de viagem, mudança de país ou agenda irregular.
As sessões duram aproximadamente de quarenta a cinquenta minutos, com frequência semanal ou quinzenal, definida caso a caso. Em processos assim, a continuidade importa mais que a intensidade, porque é a regularidade que permite que o que se repete se torne perceptível para quem fala.
O que não se sabe de antemão
Quanto ao resultado, não há forma única. Para algumas pessoas, o efeito é trabalhar menos. Para outras, é permanecer no mesmo ritmo com outra relação com ele, o que às vezes muda mais do que a redução de horas mudaria. E há quem descubra, no percurso, que o que estava em questão não era exatamente o trabalho, e que a exigência tem uma história anterior a qualquer emprego.
Qual dessas hipóteses vale em cada caso é algo que só o percurso decide. A pergunta que sustenta o trabalho costuma ser esta: o que resta de alguém quando o rendimento para de responder por ele. Uma conversa inicial serve para situar a demanda: o que traz a pessoa, o que ela procura, e se este é o espaço em que isso pode ser trabalhado. A partir dela se define o enquadre.
Cláudio Akimoto é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pelo IP-USP, e pesquisa voz e escuta.